A universidade costuma ser associada à formação profissional, ao início de uma carreira e à construção de uma rede de contatos. Para algumas figuras que marcaram a ciência, a política, a tecnologia e a cultura, porém, a experiência acadêmica também teve outra consequência: foi nesse ambiente — ou a partir das conexões criadas por ele — que surgiram relacionamentos que atravessariam décadas.

No especial de Dia dos Namorados, o The College reuniu 15 casais cujas histórias estão ligadas à vida universitária. A lista passa por instituições como Harvard, Stanford, Yale, Cornell, Cambridge, MIT e Universidade de São Paulo e reúne desde Marie e Pierre Curie até Mark Zuckerberg e Priscilla Chan.

Mais do que histórias românticas, os casos mostram como a universidade pode funcionar como espaço de convivência entre pessoas com interesses intelectuais, profissionais e culturais semelhantes. Em vários exemplos, os dois integrantes do casal construíram carreiras próprias de destaque; em outros, compartilharam projetos científicos, atividades filantrópicas ou uma longa trajetória pública.

Das salas de aula aos laboratórios

Algumas das histórias mais emblemáticas da lista nasceram diretamente da convivência acadêmica.

Albert Einstein e Mileva Marić eram colegas da mesma turma de física e matemática no Politécnico de Zurique, hoje ETH Zürich. Mileva era a única mulher do grupo, e os dois se aproximaram enquanto estudavam. Casaram-se em 1903. Einstein posteriormente se tornaria uma das figuras mais importantes da ciência moderna, enquanto Mileva teve formação em física e participou de seus primeiros anos de vida intelectual.

A ciência também aproximou Marie e Pierre Curie. Marie estudava física e matemática na Sorbonne quando conheceu Pierre, em 1894, enquanto buscava espaço para desenvolver seu trabalho em laboratório. Casaram-se no ano seguinte e formaram uma das parcerias científicas mais conhecidas da história. Juntos, avançaram nos estudos sobre radioatividade, descobriram o polônio e o rádio e dividiram o Nobel de Física de 1903. Marie receberia ainda um segundo Nobel, de Química, em 1911.

Décadas depois, outro casal ligado à ciência ganharia projeção internacional. Alicia estudava Física no MIT quando conheceu John Nash, então jovem professor de matemática da instituição. Eles se casaram em 1957, separaram-se posteriormente e voltaram a se casar em 2001. Nash receberia o Nobel de Economia em 1994 e o Prêmio Abel em 2015. A trajetória do casal inspirou o filme Uma Mente Brilhante.

Política também formou casais nos campi

Universidades de elite americanas aparecem com frequência entre os casais que posteriormente ocupariam posições de grande influência política.

Bill e Hillary Clinton se conheceram na Faculdade de Direito de Yale, no início dos anos 1970. Segundo o relato apresentado no levantamento, Hillary decidiu se apresentar depois de perceber que Bill a observava repetidamente na biblioteca. Eles se casaram em 1975. Bill seria presidente dos Estados Unidos entre 1993 e 2001, enquanto Hillary construiria uma trajetória como primeira-dama, senadora, secretária de Estado e primeira mulher indicada à Presidência dos EUA por um grande partido.

A Cornell University também está ligada à história de Ruth Bader Ginsburg e Martin Ginsburg. Os dois, ainda estudantes de graduação, foram apresentados em um encontro às cegas em 1951. Casaram-se em 1954 e permaneceram juntos por 56 anos, até a morte de Martin, em 2010. Ruth se tornaria juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos e uma das figuras mais conhecidas da história recente do Judiciário americano; Martin construiu carreira como advogado tributarista.

No Brasil, Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso ingressaram no começo dos anos 1950 na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo para estudar Ciências Sociais. Ruth ficou em primeiro lugar no processo de entrada e Fernando Henrique, em segundo. Casaram-se em 1953 e posteriormente construíram trajetórias intelectuais próprias: ele como sociólogo e presidente do Brasil entre 1995 e 2002; ela como antropóloga, pesquisadora e primeira-dama.

Há ainda o caso de Barack e Michelle Obama, cuja aproximação ocorreu fora do campus, mas diretamente ligada à formação acadêmica em Harvard Law School. No verão de 1989, Michelle, então no escritório de advocacia Sidley & Austin, em Chicago, foi designada para orientar Barack, que atuava como estagiário e também estudava Direito em Harvard. Casaram-se em 1992. Barack se tornaria o 44º presidente dos Estados Unidos, enquanto Michelle construiria uma trajetória própria como advogada, autora e primeira-dama.

Tecnologia reúne histórias de Stanford, Harvard e Oregon State

Entre os casais mais recentes, o setor de tecnologia ocupa espaço importante.

Mark Zuckerberg e Priscilla Chan se conheceram em 2003 durante uma festa em Harvard. O encontro ocorreu na fila do banheiro e antecedeu em pouco tempo a criação do Facebook. Eles se casaram em 2012 e, além da trajetória empresarial de Zuckerberg à frente da Meta, criaram juntos a Chan Zuckerberg Initiative, organização filantrópica voltada a áreas como educação, ciência e saúde.

Stanford aparece na história de Steve Jobs e Laurene Powell. Em outubro de 1989, Laurene, então aluna de MBA, assistiu a uma palestra de Jobs na escola de negócios da universidade. Eles jantaram juntos naquela mesma noite e se casaram em 1991. Jobs lideraria Apple e Pixar; Laurene posteriormente fundaria a Emerson Collective, com atuação em educação, justiça e meio ambiente.

Já Jensen Huang e Lori Huang foram parceiros de laboratório em Engenharia Elétrica na Oregon State University. Jensen, então calouro de 17 anos, aproximou-se de Lori propondo que estudassem juntos aos domingos. Casaram-se em 1985. Ele cofundaria e passaria a comandar a Nvidia; Lori, por sua vez, está ligada à fundação Jen-Hsun & Lori Huang.

Sundar Pichai e Anjali Pichai também começaram como colegas de universidade. Os dois estudaram no IIT Kharagpur, na Índia: ele em Engenharia Metalúrgica e ela em Engenharia Química, integrando a turma de 1993. A amizade virou relacionamento, e Sundar pediu Anjali em casamento no último ano da graduação. Mais tarde, ele se tornaria CEO do Google e da Alphabet, enquanto ela construiria carreira executiva em tecnologia e estratégia de negócios.

Literatura, ciência e até a família real

Nem todas as histórias estão ligadas ao universo empresarial ou político. A lista também inclui nomes da literatura, da física e da realeza britânica.

Stephen King e Tabitha King se conheceram na University of Maine, em Orono. Ela trabalhava na biblioteca do campus, e os dois frequentavam a mesma oficina de poesia. Casaram-se em 1971 e construíram carreiras como escritores. Também mantêm a Fundação Stephen & Tabitha King, que apoia bibliotecas e projetos de leitura no Maine.

Clarice Lispector e Maury Gurgel foram colegas na Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, então ligada à Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Casaram-se em janeiro de 1943, ano em que Clarice lançou Perto do Coração Selvagem. Enquanto ela se consolidaria como uma das maiores escritoras brasileiras do século XX, Maury seguiria carreira diplomática. O casal teve dois filhos e se separou em 1959.

Stephen Hawking e Jane Wilde foram apresentados por amigos em uma festa de Ano-Novo em 1963, período em que ele iniciava o doutorado em Cambridge e ela estudava línguas. Casaram-se em 1965 e permaneceram juntos por quase 30 anos. Enquanto Hawking se tornava um dos físicos mais influentes de sua geração, Jane conciliava a vida familiar, os cuidados com o marido e sua própria carreira acadêmica. Suas memórias posteriormente inspirariam o filme A Teoria de Tudo.

Na Universidade de St Andrews, na Escócia, William e Kate Middleton se conheceram como calouros em 2001. Moravam no mesmo alojamento e começaram estudando História da Arte. A amizade evoluiu para namoro e os dois se casaram em 2011. Hoje, são Príncipe e Princesa de Gales e exercem funções institucionais dentro da família real britânica.

Os 15 casais reunidos pelo The College

O levantamento reúne histórias de diferentes épocas, países e áreas profissionais:

  1. Barack Obama & Michelle Obama — Universidade Harvard, Estados Unidos

  2. Albert Einstein & Mileva Marić — ETH Zürich, Suíça

  3. Steve Jobs & Laurene Powell — Universidade Stanford, Estados Unidos

  4. Mark Zuckerberg & Priscilla Chan — Universidade Harvard, Estados Unidos

  5. Marie Curie & Pierre Curie — Universidade de Paris, França

  6. Fernando Henrique & Ruth Cardoso — Universidade de São Paulo, Brasil

  7. Bill Clinton & Hillary Clinton — Universidade Yale, Estados Unidos

  8. Ruth B. Ginsburg & Martin Ginsburg — Universidade Cornell, Estados Unidos

  9. Príncipe William & Kate Middleton — Universidade de St Andrews, Reino Unido

  10. Stephen Hawking & Jane Wilde — Universidade de Cambridge, Reino Unido

  11. Clarice Lispector & Maury Gurgel — Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Brasil

  12. Jensen Huang & Lori Huang — Universidade Estadual do Oregon, Estados Unidos

  13. Sundar Pichai & Anjali Pichai — IIT Kharagpur, Índia

  14. Stephen King & Tabitha King — Universidade do Maine, Estados Unidos

  15. John Nash & Alicia Nash — MIT, Estados Unidos

Harvard aparece duas vezes, mas a diversidade é o principal padrão

Entre as 15 histórias reunidas, Harvard é a única instituição que aparece associada a dois casais: Barack e Michelle Obama e Mark Zuckerberg e Priscilla Chan. As demais universidades aparecem uma vez cada, distribuídas por Estados Unidos, Brasil, Reino Unido, Suíça, França e Índia.

Os Estados Unidos concentram a maior parte dos casos, mas o levantamento está longe de se limitar ao país. USP e UFRJ representam o Brasil; Cambridge e St Andrews aparecem no Reino Unido; ETH Zürich, Universidade de Paris e IIT Kharagpur ampliam o recorte para outras regiões.

Também chama atenção a diversidade de áreas. Há casais formados ou inseridos em Direito, Ciências Sociais, Física, Matemática, Engenharia, Administração, Literatura e outras disciplinas. Isso impede qualquer leitura de que determinado curso ou universidade seja particularmente associado à formação de relacionamentos duradouros.

O que os exemplos permitem observar é algo mais simples: universidades são ambientes nos quais pessoas passam anos convivendo, estudando, trabalhando em projetos e construindo redes sociais e profissionais. Em alguns casos excepcionais, essas conexões acadêmicas acabaram acompanhando trajetórias que depois ganhariam relevância mundial.

Metodologia

A seleção realizada pelo The College reúne 15 casais conhecidos por trajetórias de destaque em áreas como política, ciência, tecnologia, literatura e vida pública, cujas histórias de relacionamento possuem ligação com o ambiente acadêmico. O recorte não pretende representar estatisticamente a frequência com que relacionamentos surgem na universidade nem estabelecer relação entre formação acadêmica e sucesso profissional. Em alguns casos, o primeiro contato ocorreu diretamente no campus; em outros, aconteceu em contextos profissionais ou sociais associados à trajetória universitária.