A saúde mental de estudantes universitários tem ganhado espaço no debate sobre ensino superior, especialmente diante de questões como pressão por desempenho, carga acadêmica, incerteza profissional e adaptação à rotina da graduação. Um estudo realizado com alunos da Universidade Federal da Bahia (UFBA) ajuda a dimensionar esse cenário — e mostra que a prevalência de sintomas associados a transtornos mentais comuns pode variar de forma relevante entre diferentes cursos.

A pesquisa analisou 7.177 estudantes de 77 graduações da universidade. Considerando toda a amostra, 71,5% dos participantes apresentaram sintomas compatíveis com suspeita de transtornos mentais comuns (TMC).

Quando os resultados são separados por curso, porém, alguns índices ficam consideravelmente acima dessa média. Entre as dez graduações com maior prevalência, todas ultrapassaram 78%. Design liderou o levantamento, com 91,3%, seguido por Geofísica, com 88,2%, e Ciências Biológicas, com 84,5%.

Os resultados não equivalem a diagnósticos clínicos. O instrumento utilizado na pesquisa serve para rastrear sintomas relacionados a transtornos mentais comuns e identificar pessoas que podem demandar maior atenção, mas não permite concluir, isoladamente, que determinado estudante possui um transtorno.

Design aparece quase 20 pontos percentuais acima da média da amostra

O dado mais elevado do levantamento está entre os estudantes de Design: 91,3% apresentaram resultado compatível com suspeita de TMC. O percentual é 19,8 pontos percentuais superior aos 71,5% registrados no conjunto dos participantes.

Geofísica aparece logo depois, com 88,2%. A diferença entre os dois primeiros colocados é de 3,1 pontos percentuais. Já Ciências Biológicas ocupa a terceira posição, com 84,5%.

A partir daí, as distâncias ficam menores. Engenharia Sanitária e Ambiental registra 83,3%; Medicina Veterinária, 82,7%; e Geologia, 82,5%. Isso significa que apenas 0,8 ponto percentual separa o quarto do sexto lugar.

Museologia aparece em seguida, com 81,8%, completando o grupo de sete cursos em que mais de oito em cada dez estudantes da amostra apresentaram sintomas compatíveis com suspeita de TMC.

Os maiores índices estão distribuídos por áreas bastante diferentes

Um aspecto que chama atenção é a diversidade das formações presentes entre os primeiros colocados. O ranking não está concentrado em uma única área acadêmica.

Há cursos ligados às artes e criação, como Design e Artes Cênicas; às ciências naturais, como Ciências Biológicas e Geologia; às engenharias, como Engenharia Sanitária e Ambiental; à saúde, como Medicina Veterinária; e às ciências humanas e sociais, como Museologia e Ciências Sociais. Geofísica e Estatística também aparecem entre os dez maiores índices.

Essa variedade impede uma leitura simples segundo a qual uma determinada área de conhecimento estaria, por si só, associada a piores indicadores de saúde mental. O levantamento mostra diferenças entre cursos dentro da amostra analisada, mas não estabelece que a graduação cursada seja a causa dos sintomas identificados.

Também é necessário considerar que fatores como carga de estudos, avaliações, expectativas profissionais e características das rotinas acadêmicas podem fazer parte da experiência universitária. No entanto, atribuir os percentuais encontrados diretamente a esses elementos exigiria análises específicas de causalidade.

Até o décimo lugar fica acima de 78%

Na parte final do grupo destacado pelo estudo, Ciências Sociais aparece com prevalência de 79,5%. Estatística e Artes Cênicas dividem a nona posição, ambas com 78,6%.

Mesmo nesses casos, os índices permanecem mais de sete pontos percentuais acima da média geral de 71,5%.

O fato de dez cursos apresentarem percentuais tão elevados chama atenção para a dimensão do fenômeno observado na universidade estudada. Ao mesmo tempo, o próprio resultado médio da pesquisa indica que os sintomas não estavam restritos apenas às graduações que aparecem no topo do ranking: mais de sete em cada dez participantes de toda a amostra atingiram o ponto de corte utilizado para suspeita de transtornos mentais comuns.

Ranking dos cursos com maior prevalência de TMC

Entre os 77 cursos analisados no estudo, estes foram os dez maiores percentuais apresentados:

  1. Design — 91,3%

  2. Geofísica — 88,2%

  3. Ciências Biológicas — 84,5%

  4. Engenharia Sanitária e Ambiental — 83,3%

  5. Medicina Veterinária — 82,7%

  6. Geologia — 82,5%

  7. Museologia — 81,8%

  8. Ciências Sociais — 79,5%

  9. Estatística — 78,6%

  10. Artes Cênicas — 78,6%

Média geral da amostra: 71,5%.

O que significa ter suspeita de transtorno mental comum

A pesquisa utilizou o SRQ-20, instrumento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e validado no Brasil para rastreamento de transtornos mentais comuns.

Esse tipo de avaliação considera sintomas que podem envolver ansiedade, sintomas depressivos, insônia, fadiga e dificuldades de concentração. O resultado, portanto, funciona como um indicador de possível sofrimento psicológico e não como diagnóstico médico ou psicológico.

Essa distinção é fundamental para interpretar os números. Dizer que 91,3% dos estudantes de Design avaliados apresentaram resultado compatível com suspeita de TMC não significa afirmar que 91,3% tenham um transtorno mental diagnosticado.

Da mesma forma, o ranking não deve ser interpretado como uma classificação de quais cursos são necessariamente “piores” para a saúde mental. Ele registra a prevalência encontrada entre os estudantes que participaram daquela pesquisa, naquele contexto específico.

Uma fotografia de uma universidade, não de todos os universitários brasileiros

Embora o estudo ajude a ampliar a discussão sobre saúde mental no ensino superior, seus resultados possuem limites importantes.

Todos os participantes eram estudantes da UFBA. Por isso, não é possível assumir que um aluno de Design, Geofísica ou qualquer outra graduação em outra universidade brasileira apresentaria os mesmos índices.

As diferenças no tamanho das amostras de cada curso também exigem cautela. Graduações com menos participantes podem produzir percentuais mais sensíveis à composição do grupo pesquisado.

Ainda assim, o levantamento oferece um recorte relevante ao comparar 77 graduações dentro da mesma instituição e utilizar um instrumento padronizado para avaliar milhares de estudantes. Mais do que estabelecer uma relação direta entre curso e saúde mental, os dados mostram que o sofrimento psicológico estava amplamente presente entre os universitários pesquisados — e que sua prevalência variava de maneira significativa entre as formações.

Metodologia

Os dados são do estudo “Saúde Mental de Universitários: Levantamento de Transtornos Mentais Comuns em Estudantes de uma Universidade Brasileira”, de R. N. Barros e A. L. A. Peixoto, publicado em 2023 na revista Quaderns de Psicologia.

A pesquisa analisou 7.177 estudantes de 77 cursos de graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A prevalência geral de suspeita de transtornos mentais comuns foi de 71,5%.

O levantamento utilizou o SRQ-20, instrumento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde e validado no Brasil. Os resultados representam rastreamento de sintomas e não correspondem a diagnósticos clínicos.

Como a amostra é formada por estudantes de uma única universidade e alguns cursos tiveram grupos menores de participantes, os percentuais não devem ser generalizados para todos os estudantes ou cursos do Brasil.

Fonte: Barros, R. N.; Peixoto, A. L. A. (2023). Saúde Mental de Universitários: Levantamento de Transtornos Mentais Comuns em Estudantes de uma Universidade Brasileira. Quaderns de Psicologia, 25(2), e1958. Universidade Federal da Bahia (UFBA). DOI: 10.5565/rev/qpsicologia.1958.