O ecossistema brasileiro de tecnologia ganhou um novo integrante no grupo das empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. A Enter, startup de inteligência artificial voltada ao setor jurídico, atingiu valuation de US$ 1,2 bilhão e passou a integrar a lista de unicórnios fundados no país.
O movimento também abre espaço para observar um aspecto menos discutido na trajetória de empresas bilionárias: a formação acadêmica de seus fundadores.
Um levantamento realizado pelo The College reuniu informações públicas sobre 48 fundadores ligados a 18 startups brasileiras que alcançaram o status de unicórnio. O recorte inclui empresas de diferentes gerações e setores, da VTEX, fundada em 2000, à Enter, criada em 2023, passando por nomes como 99, iFood, Nubank, QuintoAndar, Stone, Hotmart e Mercado Bitcoin.
Os dados não permitem afirmar que determinada graduação ou universidade aumente as chances de construir uma empresa bilionária. Empreender envolve uma combinação de fatores que passa por mercado, execução, capital, equipe, tecnologia e timing. Ainda assim, o histórico educacional desse grupo revela alguns padrões: a USP aparece com frequência elevada, enquanto Engenharia, Administração, Ciência da Computação e Economia se repetem em diferentes companhias.
A USP aparece em diferentes gerações de unicórnios
Entre as instituições identificadas no levantamento, a Universidade de São Paulo é a presença mais recorrente. Ao menos 15 dos 48 fundadores reunidos no carrossel possuem formação ligada à USP, considerando diferentes unidades da universidade, como Escola Politécnica, FEA e Esalq.
O padrão aparece, por exemplo, na 99, fundada em 2012. Paulo Veras, Renato Freitas e Ariel Lambrecht cursaram Engenharia Mecatrônica na Escola Politécnica da USP. No iFood, três dos quatro fundadores apresentados também passaram pela instituição: Patrick Sigrist estudou Engenharia Florestal na Esalq, Guilherme Bonifácio cursou Economia na FEA e Felipe Fioravante, Administração, também na FEA.
A universidade volta a aparecer em empresas de segmentos distintos. Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, formou-se em Engenharia Industrial pela Escola Politécnica; Cesar Carvalho e João Thayro, da Wellhub, cursaram Administração na FEA; Victor Lazarte e Arthur Lazarte, da Wildlife Studios, fizeram Engenharia na Poli.
Entre os fundadores do Banco C6, Marcelo Kalim estudou Economia na USP. No Mercado Bitcoin, Gustavo Chamati e Rodrigo Batista cursaram Administração na FEA. Já Marcelo Buosi, da QI Tech, aparece no levantamento com bacharelado pela FEA/USP.
A recorrência é relevante dentro da amostra, mas exige cautela na interpretação. O levantamento não compara os fundadores de unicórnios com o universo total de empreendedores brasileiros nem controla fatores como localização, período histórico, redes profissionais ou tamanho das turmas de cada universidade. Portanto, a presença da USP deve ser entendida como uma concentração observada neste recorte, e não como evidência de uma relação causal entre estudar na instituição e criar uma startup bilionária.
Engenharia e Administração concentram boa parte das formações
Também há uma concentração em algumas áreas de estudo.
Engenharia é uma das formações que mais se repetem, embora em diferentes especialidades. Além dos três fundadores da 99, aparecem Patrick Sigrist, do iFood, em Engenharia Florestal; Cristina Junqueira, do Nubank, em Engenharia Industrial; André Penha, do QuintoAndar, em Engenharia da Computação; Victor e Arthur Lazarte, da Wildlife Studios; Mariano Gomide e Geraldo Thomaz, da VTEX, ambos em Engenharia Mecânica; Daniel Scandian, da MadeiraMadeira, em Engenharia de Produção; e Michael Mac-Vicari, da Enter, em Engenharia Elétrica.
David Vélez, do Nubank, acrescenta ao grupo uma formação em Management Science & Engineering pela Stanford University.
Administração também aparece com frequência. Felipe Fioravante, Cesar Carvalho, João Thayro, Gabriel Braga, Luiz Marcelo Calicchio, Marcelo Scandian, Gustavo Chamati, Rodrigo Batista e Pedro Mac Dowell estão entre os fundadores apresentados com graduação concluída na área. Pedro Conrade, do Banco Neon, cursou Administração na FGV-SP, mas não concluiu o curso.
Ciência da Computação, Economia e Direito formam outro grupo recorrente. A diversidade, porém, é maior do que uma análise restrita às áreas mais frequentes poderia sugerir.
Na Loggi, por exemplo, Arthur Debert estudou Cinema e Eduardo Wexler, Design Gráfico, ambos na FAAP. Robson Privado, da MadeiraMadeira, é formado em Educação Física pela UFPR. Eduardo Baer, do iFood, estudou Marketing e Comunicação Social na ESPM. Florian Hagenbuch, da Loft, cursou Finanças e Estudos Internacionais na Wharton School.
Ou seja, mesmo entre empresas fortemente associadas à tecnologia e à inovação, não existe uma formação acadêmica única entre os fundadores.
Computação ganha espaço em negócios digitais e financeiros
A Ciência da Computação aparece em diferentes tipos de empresa, especialmente em negócios cuja operação depende diretamente de software e infraestrutura digital.
Edward Wible, cofundador do Nubank, formou-se em Ciência da Computação pela Princeton University. João Del Valle, do Ebanx, cursou a área na PUC-PR. João Pedro Resende e Mateus Bicalho, fundadores da Hotmart, estudaram Ciências da Computação na PUC-MG.
Eduardo Pontes, da Stone, também tem formação em Ciências da Computação, pela PUC-Rio, enquanto Maurício Chamati, do Mercado Bitcoin, estudou na Universidade Paulista.
Na Enter, Henrique Vaz reúne Ciência da Computação e Estatística em sua formação pela Harvard University. Seus dois cofundadores têm trajetórias distintas: Mateus Costa Ribeiro é formado em Direito pela Universidade de Brasília, e Michael Mac-Vicari, em Engenharia Elétrica pela Pontificia Universidad Católica de Chile.
O caso ilustra um padrão também observado em outras empresas do levantamento: equipes fundadoras podem reunir conhecimentos de tecnologia, negócios e áreas diretamente relacionadas ao mercado em que a startup atua.
Universidades brasileiras convivem com Stanford, Harvard, Princeton e Wharton
Embora instituições brasileiras predominem no conjunto apresentado, algumas universidades internacionais aparecem entre os fundadores.
David Vélez estudou em Stanford, e Edward Wible, em Princeton. Na Loft, os dois nomes reunidos no carrossel possuem formação nos Estados Unidos: Mate Pencz é formado em Economia por Harvard, enquanto Florian Hagenbuch estudou Finanças e Estudos Internacionais na Wharton School da University of Pennsylvania.
Henrique Vaz, da Enter, também passou por Harvard. Já Fabien Mendez, da Loggi, cursou Economia e Direito na Sciences Po, na França, e Michael Mac-Vicari estudou na Pontificia Universidad Católica de Chile.
O recorte, portanto, reúne tanto fundadores formados em universidades públicas brasileiras quanto em instituições privadas nacionais e universidades estrangeiras.
As 18 startups e a formação de seus fundadores
99 App (2012): Paulo Veras, Renato Freitas e Ariel Lambrecht — Engenharia Mecatrônica pela Escola Politécnica da USP.
iFood (2011): Patrick Sigrist — Engenharia Florestal pela Esalq/USP; Eduardo Baer — Marketing e Comunicação Social pela ESPM; Guilherme Bonifácio — Economia pela FEA/USP; Felipe Fioravante — Administração pela FEA/USP.
Nubank (2013): David Vélez — Management Science & Engineering por Stanford; Cristina Junqueira — Engenharia Industrial pela Escola Politécnica da USP; Edward Wible — Ciência da Computação por Princeton.
Wellhub (2012): Cesar Carvalho — Administração pela FEA/USP; Vinicius Ferriani — Engenharia, com instituição não confirmada; João Thayro — Administração pela FEA/USP.
Loggi (2013): Fabien Mendez — Economia e Direito pela Sciences Po; Arthur Debert — Cinema pela FAAP; Eduardo Wexler — Design Gráfico pela FAAP.
QuintoAndar (2013): Gabriel Braga — Administração pela UFMG; André Penha — Engenharia da Computação pela Unicamp.
Ebanx (2012): Alphonse Voigt — Direito pela PUC-PR; João Del Valle — Ciência da Computação pela PUC-PR; Wagner Ruiz — Economia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Wildlife Studios (2011): Victor Lazarte — Engenharia Industrial pela Escola Politécnica da USP; Arthur Lazarte — Engenharia pela Escola Politécnica da USP.
Loft (2018): Mate Pencz — Economia por Harvard; Florian Hagenbuch — Finanças e Estudos Internacionais pela Wharton School da University of Pennsylvania.
VTEX (2000): Mariano Gomide e Geraldo Thomaz — Engenharia Mecânica pela UFRJ.
Banco C6 (2018): Marcelo Kalim — Economia pela USP; Leandro Torres — graduação não encontrada em fontes públicas; Luiz Marcelo Calicchio — Administração de Empresas pela FGV-SP; Adriano Ghelman — Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
MadeiraMadeira (2009): Daniel Scandian — Engenharia de Produção, com instituição não confirmada; Marcelo Scandian — Administração de Empresas pela Universidade Tuiuti do Paraná; Robson Privado — Educação Física pela UFPR.
Hotmart (2011): João Pedro Resende e Mateus Bicalho — Ciências da Computação pela PUC-MG.
Stone (2012): André Street — cursou Direito na Universidade Cândido Mendes, mas não concluiu; Eduardo Pontes — Ciências da Computação pela PUC-Rio.
Mercado Bitcoin (2013): Gustavo Chamati — Administração pela FEA/USP; Maurício Chamati — Ciências da Computação pela Universidade Paulista; Rodrigo Batista — Administração pela FEA/USP.
Banco Neon (2016): Pedro Conrade — cursou Administração na FGV-SP, mas não concluiu.
QI Tech (2018): Pedro Mac Dowell — Administração de Empresas pelo Ibmec; Marcelo Bentivoglio — Ciências Econômicas pelo Insper; Marcelo Buosi — bacharelado pela FEA/USP.
Enter (2023): Mateus Costa Ribeiro — Direito pela Universidade de Brasília; Henrique Vaz — Ciência da Computação e Estatística por Harvard; Michael Mac-Vicari — Engenharia Elétrica pela Pontificia Universidad Católica de Chile.
O que o recorte permite observar
A formação acadêmica aparece como um elemento recorrente na trajetória dos fundadores analisados, mas não como um caminho padronizado. Há forte presença de cursos quantitativos e ligados a negócios, especialmente Engenharia, Administração, Ciência da Computação e Economia, ao mesmo tempo em que aparecem formações em Direito, Cinema, Design, Educação Física, Marketing e outras áreas.
O mesmo vale para as universidades. A USP se destaca numericamente dentro da amostra, mas os 48 nomes passaram por instituições públicas e privadas de diferentes estados brasileiros, além de universidades estrangeiras.
Mais do que indicar uma “faculdade para fundar unicórnios”, os dados mostram que determinadas instituições e áreas de formação aparecem com maior frequência entre os empreendedores selecionados. Determinar quanto dessa concentração está relacionado à formação acadêmica propriamente dita, às redes construídas nesses ambientes ou a outros fatores exigiria uma análise mais ampla do que este levantamento permite.
Metodologia
O levantamento realizado pelo The College reúne 48 fundadores de 18 startups brasileiras que atingiram valuation superior a US$ 1 bilhão. A seleção das empresas considerou popularidade, relevância pública e reconhecimento de marca e, portanto, não representa uma lista completa nem um ranking dos unicórnios brasileiros.
As informações acadêmicas foram compiladas a partir de fontes públicas. Em alguns casos, há divergências entre os registros disponíveis ou não foi possível confirmar a instituição, a graduação ou a conclusão do curso. O material sinaliza essas situações individualmente.
A análise considera as formações apresentadas no carrossel e não estabelece relação causal entre universidade, curso e sucesso empresarial. A presença recorrente de determinadas instituições ou áreas indica apenas uma concentração dentro da amostra selecionada.
Publicado em [06-05-2026]
