O mercado de capitais brasileiro reúne trajetórias profissionais construídas a partir de formações acadêmicas bastante diferentes. Embora cursos ligados a finanças e negócios apareçam com frequência, alguns dos gestores e investidores mais conhecidos do país chegaram ao setor depois de estudar Engenharia, Direito e até Medicina.
Em um levantamento realizado pelo The College, foram analisadas as trajetórias acadêmicas de 10 nomes ligados à gestão de recursos, value investing, fundos independentes e grandes casas de investimento no Brasil. O recorte inclui profissionais como Luis Stuhlberger, Luiz Barsi Filho, Florian Bartunek, André Jakurski, Lírio Parisotto e Pedro Cerize.
O conjunto de dados mostra dois padrões mais claros. Economia e Engenharia são as áreas de graduação mais recorrentes entre os nomes analisados, enquanto a Universidade de São Paulo aparece como a instituição mais presente. Ao mesmo tempo, a diversidade das trajetórias impede qualquer leitura de que exista uma formação obrigatória para chegar ao mercado financeiro.
Economia e Engenharia concentram boa parte das formações
Entre os dez profissionais analisados, três fizeram graduação em Economia: Luiz Barsi Filho, Pedro Damasceno e Guilherme Aché. Outros três têm formação em áreas de Engenharia: Luis Stuhlberger em Engenharia Civil, André Jakurski em Engenharia Mecânica e Guilherme Affonso Ferreira em Engenharia de Produção.
Administração aparece em outros dois casos, com Florian Bartunek e Pedro Cerize. A amostra ainda inclui trajetórias menos associadas, à primeira vista, ao mercado financeiro: Lírio Parisotto é formado em Medicina, enquanto Luiz Barsi também concluiu uma segunda graduação em Direito.
Essa distribuição ajuda a mostrar uma característica do setor: não há, dentro do recorte analisado, uma única graduação dominante.
Economia e Engenharia aparecem com maior frequência, mas representam caminhos acadêmicos diferentes. Enquanto Economia está diretamente relacionada ao estudo de mercados, incentivos e funcionamento da atividade econômica, as Engenharias tradicionalmente trabalham com raciocínio quantitativo, resolução de problemas e análise de sistemas.
Isso não significa, porém, que esses cursos produzam necessariamente melhores investidores. O levantamento mostra apenas uma concentração dessas formações entre os dez nomes selecionados, sem estabelecer relação causal entre graduação e desempenho profissional.
USP é a instituição mais recorrente na amostra
A Universidade de São Paulo é a instituição com maior presença entre as formações levantadas.
Luis Stuhlberger concluiu Engenharia Civil na Escola Politécnica da USP em 1977. Luiz Barsi Filho terminou Economia na Faculdade de Economia, Finanças e Administração de São Paulo, indicada no material como USP, em 1962. Luiz Alves Paes de Barros graduou-se em Ciências Econômicas pela Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP em 1971. Guilherme Affonso Ferreira, por sua vez, concluiu Engenharia de Produção na Escola Politécnica da universidade em 1974.
A concentração da USP é relevante dentro da amostra, mas também deve ser interpretada com cautela. Os profissionais selecionados pertencem, em grande parte, a uma geração que iniciou a carreira entre as décadas de 1960 e 1990, período em que o mercado brasileiro de gestão de recursos tinha estrutura bastante diferente da atual.
Outras instituições tradicionais aparecem no levantamento. A PUC-Rio está ligada às formações de Florian Bartunek e André Jakurski. A Universidade Cândido Mendes aparece com Pedro Damasceno e Guilherme Aché. FGV-SP e Universidade de Caxias do Sul completam as graduações principais do grupo.
Harvard aparece na formação executiva de dois gestores
Além das graduações, alguns profissionais do levantamento buscaram formação complementar no exterior.
André Jakurski concluiu um MBA pela Harvard Business School em 1973, dois anos depois de terminar Engenharia Mecânica na PUC-Rio.
Florian Bartunek, formado em Administração pela PUC-Rio em 1990, participou em 2010 de um programa executivo do Young Presidents' Organization na Harvard Business School.
Guilherme Affonso Ferreira também possui formação internacional: em 1976, realizou uma pós-graduação em Economia e Política no Macalester College, em St. Paul, Minnesota, nos Estados Unidos.
Pedro Cerize, por sua vez, concluiu em 1993 um MBA pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, o IBMEC, após sua graduação em Administração de Empresas pela FGV-SP em 1991.
Esses casos mostram que, entre parte dos profissionais analisados, a formação acadêmica continuou depois da graduação. Ainda assim, metade dos nomes apresentados no carrossel aparece apenas com a formação de graduação destacada.
De Medicina a gestão de ações: trajetórias que fogem do padrão
O caso de Lírio Parisotto é o exemplo mais distante das formações tradicionalmente associadas ao mercado financeiro. O investidor concluiu Medicina pela Universidade de Caxias do Sul em 1982.
Sua presença na amostra reforça que uma formação específica não é condição necessária para construir uma trajetória relevante como investidor.
Luiz Barsi também apresenta uma combinação incomum. Além do bacharelado em Economia concluído em 1962, ele se formou em Direito pela Faculdade de Direito de Varginha em 1968.
Dentro de uma amostra pequena, esses casos são importantes porque relativizam qualquer tentativa de transformar os cursos mais frequentes em uma espécie de pré-requisito para o setor.
Os 10 investidores e gestores e suas formações
Luis Stuhlberger
Gestor ligado ao Fundo Verde. Concluiu em 1977 o bacharelado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP). Em 1980, fez especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Luiz Barsi Filho
Investidor conhecido pela estratégia de longo prazo e investimentos em empresas pagadoras de dividendos. Concluiu em 1962 o bacharelado em Economia pela Faculdade de Economia, Finanças e Administração de São Paulo, indicada no levantamento como USP. Em 1968, terminou o bacharelado em Direito pela Faculdade de Direito de Varginha.
Florian Bartunek
Fundador da Constellation. Graduou-se em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1990. Em 2010, participou do programa executivo Young Presidents' Organization (YPO) da Harvard Business School.
Luiz Alves Paes de Barros
Investidor associado a uma longa trajetória no mercado brasileiro de ações. Concluiu em 1971 o bacharelado em Ciências Econômicas pela Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP).
André Jakurski
Sócio-fundador da JGP. Formou-se em Engenharia Mecânica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) em 1971 e concluiu MBA pela Harvard Business School em 1973.
Guilherme Affonso Ferreira
Investidor fundamentalista e conselheiro de empresas. Concluiu em 1974 Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP). Em 1976, fez pós-graduação em Economia e Política pelo Macalester College, em St. Paul, Minnesota, nos Estados Unidos.
Lírio Parisotto
Investidor individual conhecido por uma carteira concentrada em ações. Concluiu em 1982 o bacharelado em Medicina pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).
Pedro Damasceno
Cofundador da Dynamo. Graduou-se em Economia pela Universidade Cândido Mendes em 1992.
Guilherme Aché
Fundador da Squadra. Concluiu em 1991 o bacharelado em Economia pela Faculdade Cândido Mendes.
Pedro Cerize
Fundador da Skopos. Graduou-se em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) em 1991 e concluiu MBA pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC) em 1993.
O que a amostra permite observar
Os dados compilados pelo The College apontam uma concentração de formações em Economia e Engenharia, mas também mostram que o universo dos investimentos brasileiros não foi construído exclusivamente por profissionais graduados em Finanças, Administração ou cursos diretamente associados ao setor.
Outro aspecto relevante é geracional. As graduações do grupo foram concluídas entre 1962 e 1992. Trata-se, portanto, de profissionais que ingressaram no mercado em diferentes momentos da história econômica brasileira e que construíram suas carreiras antes da expansão recente de cursos específicos de finanças, mercado de capitais e gestão de investimentos.
Por isso, o levantamento funciona melhor como um retrato das trajetórias acadêmicas de alguns nomes reconhecidos do mercado do que como um guia de formação profissional. A presença recorrente de Economia, Engenharia e USP é um padrão dentro da amostra — não uma indicação de que esses sejam os únicos, ou necessariamente os melhores, caminhos para quem pretende trabalhar no setor.
Metodologia
O levantamento realizado pelo The College analisou a formação acadêmica de 10 investidores e gestores ligados à gestão de recursos, value investing, fundos independentes e grandes casas de investimento no Brasil.
Os nomes foram selecionados a partir de reconhecimento público e relevância no mercado de capitais brasileiro. A lista não pretende constituir um ranking dos “melhores” investidores ou gestores do país.
As informações acadêmicas foram apuradas a partir de currículos, biografias e fontes públicas abertas. Foram considerados os cursos e formações apresentados no material original, incluindo graduações, especializações, pós-graduações, MBAs e programas executivos.
Por se tratar de um recorte de dez profissionais, os resultados não devem ser interpretados como representativos de todo o mercado financeiro brasileiro. As frequências observadas indicam características desta amostra específica e não estabelecem relação de causalidade entre universidade, curso de graduação e sucesso profissional.
