A história política brasileira nas primeiras décadas da República também pode ser observada pelas salas de aula frequentadas por seus presidentes. Entre a Proclamação da República, em 1889, e o início do governo de José Linhares, em 1945, a formação acadêmica de quem chegou ao principal cargo do país seguiu um padrão bastante concentrado.
Levantamento realizado pelo The College mostra que, dos 15 presidentes considerados no período, 12 tinham formação em Direito, o equivalente a 80% da amostra. Os outros três — Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Hermes da Fonseca — tiveram formação militar em Artilharia.
A concentração é ainda maior quando se observa onde esses presidentes estudaram. Nove dos 15, ou 60%, passaram pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, instituição que posteriormente seria incorporada à Universidade de São Paulo (USP).
Os números revelam um recorte bastante específico da formação das primeiras elites políticas da República: durante mais de meio século, a Presidência brasileira esteve ocupada exclusivamente por juristas e militares dentro da amostra analisada.
Direito dominou a formação dos primeiros presidentes
A predominância jurídica aparece já no início da República. Depois dos governos dos militares Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, Prudente de Morais tornou-se, em 1894, o primeiro presidente da lista com formação em Direito.
A partir dali, esse perfil se tornou praticamente dominante. Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha, Venceslau Brás, Delfim Moreira, Epitácio Pessoa, Artur Bernardes, Washington Luís, Getúlio Vargas e José Linhares também haviam cursado Direito.
No total, são 12 presidentes com essa formação contra apenas três com formação militar em Artilharia.
Isso não significa que o curso de Direito, por si só, explique a chegada desses personagens à Presidência. O levantamento identifica uma concentração acadêmica entre os ocupantes do cargo, mas não permite estabelecer uma relação de causa e efeito entre a graduação escolhida e o sucesso na carreira política.
Ainda assim, a recorrência é expressiva: oito em cada dez presidentes do período analisado haviam estudado Direito.
Nove dos 15 passaram pelo Largo de São Francisco
Se a concentração por curso já é significativa, a distribuição por instituição é ainda mais marcante.
Nove presidentes estudaram na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Isso representa 60% de todos os nomes considerados no levantamento e 75% dos 12 presidentes formados em Direito.
Passaram pela instituição Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Venceslau Brás, Delfim Moreira, Artur Bernardes, Washington Luís e José Linhares.
Nenhuma outra instituição chega perto dessa presença. A Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, aparece duas vezes, assim como a Faculdade de Direito do Recife. A Escola Militar do Rio de Janeiro e a Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre aparecem uma vez cada.
A concentração mostra que a formação dos primeiros presidentes brasileiros não estava apenas restrita a poucas áreas de conhecimento, mas também a um número reduzido de instituições.
Os militares marcaram o começo — e o meio — da República Velha
Os três presidentes sem formação jurídica no período tiveram formação militar em Artilharia.
Deodoro da Fonseca, primeiro presidente da República, estudou na Escola Militar do Rio. Seu sucessor, Floriano Peixoto, passou pela Escola Militar da Praia Vermelha. Anos depois, Hermes da Fonseca, que governou entre 1910 e 1914, também teve formação em Artilharia na Praia Vermelha.
Os três casos aparecem concentrados no período da chamada República Velha, enquanto todos os demais presidentes considerados no levantamento tinham formação em Direito.
A divisão ajuda a ilustrar dois grupos particularmente presentes no comando político do país durante as primeiras décadas republicanas: militares e bacharéis em Direito. O dado, no entanto, descreve a formação acadêmica dos presidentes e não necessariamente toda a diversidade de grupos e forças políticas que atuavam no Brasil naquele momento.
Formação acadêmica dos presidentes entre 1889 e 1946
O levantamento do The College considera a instituição em que cada presidente concluiu sua formação:
Deodoro da Fonseca (1889–1891) — Artilharia, Escola Militar do Rio
Floriano Peixoto (1891–1894) — Artilharia, Escola Militar da Praia Vermelha
Prudente de Morais (1894–1898) — Direito, Largo São Francisco
Campos Sales (1898–1902) — Direito, Largo São Francisco
Rodrigues Alves (1902–1906) — Direito, Largo São Francisco
Afonso Pena (1906–1909) — Direito, Largo São Francisco
Nilo Peçanha (1909–1910) — Direito, Faculdade de Direito do Recife
Hermes da Fonseca (1910–1914) — Artilharia, Escola Militar da Praia Vermelha
Venceslau Brás (1914–1918) — Direito, Largo São Francisco
Delfim Moreira (1918–1919) — Direito, Largo São Francisco
Epitácio Pessoa (1919–1922) — Direito, Faculdade de Direito do Recife
Artur Bernardes (1922–1926) — Direito, Largo São Francisco
Washington Luís (1926–1930) — Direito, Largo São Francisco
Getúlio Vargas (1930–1945) — Direito, Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre
José Linhares (1945–1946) — Direito, Largo São Francisco
As instituições mais frequentadas
A Faculdade de Direito do Largo de São Francisco aparece isolada na primeira posição, com nove presidentes. Considerando os 15 nomes do levantamento, a distribuição é:
Largo São Francisco — 9 presidentes, ou 60,0%
Escola Militar da Praia Vermelha — 2, ou 13,3%
Faculdade de Direito do Recife — 2, ou 13,3%
Escola Militar do Rio de Janeiro — 1, ou 6,7%
Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre — 1, ou 6,7%
Na nomenclatura atual, o Largo São Francisco corresponde à Faculdade de Direito da USP; a Faculdade de Direito do Recife integra a atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); e a Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre está ligada à atual Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Uma Presidência academicamente pouco diversa
O recorte entre 1889 e 1946 chama atenção pela baixa variedade de formações. Não há, entre os 15 presidentes analisados, graduados em Engenharia, Medicina, Economia ou outras áreas civis: todos se concentram entre Direito e formação militar em Artilharia.
Também existe uma forte concentração institucional. Uma única faculdade formou nove presidentes, enquanto as outras quatro instituições identificadas respondem, juntas, pelos seis nomes restantes.
Esses números não permitem concluir que determinadas universidades ou cursos tenham produzido presidentes por causa de sua formação acadêmica. Eles mostram, porém, que as primeiras décadas da República brasileira foram marcadas por um grupo de chefes de Estado com trajetórias educacionais bastante semelhantes — sobretudo entre os bacharéis em Direito formados no Largo de São Francisco.
Metodologia
O levantamento realizado pelo The College considera 15 presidentes entre 1889 e 1946 e registra a instituição em que cada um concluiu sua formação. Os dados foram compilados a partir de biografias oficiais e registros institucionais das respectivas universidades e escolas militares, incluindo USP, UFPE e UFRGS.
Para fins de comparação, as formações foram agrupadas em duas categorias: Direito, com 12 presidentes (80% da amostra), e Artilharia, com três (20%). Os percentuais relativos às instituições também foram calculados sobre o total de 15 presidentes.
