Governar um estado não exige uma formação acadêmica específica. Ainda assim, observar o percurso educacional de quem ocupa o comando dos Executivos estaduais ajuda a traçar um retrato das áreas, instituições e tipos de qualificação que aparecem com maior frequência entre algumas das principais lideranças políticas do país.
Esse recorte ganha relevância também diante do calendário eleitoral. Muitos dos atuais governadores devem disputar espaço nas próximas eleições, seja buscando novos cargos, seja exercendo influência sobre as disputas estaduais e nacionais.
Um levantamento realizado pelo The College reuniu a formação acadêmica dos governadores dos 26 estados brasileiros no mandato de 2023 a 2026. Os dados revelam uma amostra bastante diversa, que inclui desde profissionais formados em Direito, Administração e diferentes áreas da Engenharia até médicos, matemáticos, jornalistas, pedagogos e profissionais ligados às Ciências Biológicas.
Três grandes grupos, porém, se destacam: Direito, Administração e Engenharia aparecem na trajetória acadêmica de seis governadores cada. Como alguns políticos possuem mais de uma graduação, essas categorias não são excludentes.
Também chama atenção a presença de pós-graduações, especializações, MBAs, mestrados e programas executivos. Em diferentes trajetórias, a formação inicial foi posteriormente complementada por estudos em gestão pública, políticas públicas, Direito, Administração e áreas técnicas.
Direito, Administração e Engenharia concentram boa parte das formações
A recorrência de Direito entre os governadores acompanha uma característica histórica da política brasileira: a presença relevante de profissionais com formação jurídica em cargos eletivos. No grupo analisado pelo The College, aparecem nessa área Cláudio Castro, Renato Casagrande, Jorginho Mello, Eduardo Leite, Elmano de Freitas e Raquel Lyra.
Administração também aparece em seis trajetórias. Romeu Zema, Jorginho Mello, Paulo Dantas, Fábio Mitidieri, Helder Barbalho e Coronel Marcos Rocha possuem graduação na área, embora tenham seguido percursos acadêmicos e profissionais distintos depois da faculdade.
O mesmo número aparece quando diferentes modalidades de Engenharia são agrupadas. Tarcísio de Freitas é engenheiro civil; Renato Casagrande se formou em Engenharia Florestal; Mauro Mendes, em Engenharia Elétrica; João Azevêdo, em Engenharia Civil; Gladson Cameli também é formado em Engenharia Civil; e Jerônimo Rodrigues, em Engenharia Agronômica.
Os dados não indicam que qualquer uma dessas formações produza melhores resultados na política ou aumente as chances de chegar a um governo estadual. O levantamento permite observar apenas uma concentração dessas áreas dentro do grupo analisado.
A FGV é a instituição mais recorrente nas trajetórias acadêmicas
Quando o recorte deixa de considerar apenas a graduação e passa a observar toda a trajetória acadêmica, a Fundação Getulio Vargas é a instituição que aparece com maior frequência.
A FGV está presente na formação de Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Eduardo Leite, Eduardo Riedel, Raquel Lyra e Helder Barbalho.
As passagens pela instituição, no entanto, são diferentes. Romeu Zema fez sua graduação em Administração de Empresas na FGV-SP. Tarcísio realizou MBA Executivo em Gerenciamento de Projetos. Eduardo Leite concluiu mestrado em Gestão e Políticas Públicas. Eduardo Riedel fez especialização em Gestão Empresarial e Gestão Estratégica. Raquel Lyra cursou pós-graduação em Direito Econômico e de Empresas, enquanto Helder Barbalho concluiu MBA Executivo em Gestão Pública.
O padrão mostra que a recorrência da FGV não está concentrada em um único curso, mas principalmente em formações relacionadas a gestão, políticas públicas e Administração.
Universidades federais também aparecem de maneira dispersa pelo levantamento, muitas vezes ligadas aos próprios estados ou regiões de origem dos governadores. Há ainda instituições militares e experiências internacionais em países como Estados Unidos, França, Espanha e Portugal.
Pós-graduação e formação complementar aparecem em diferentes estados
Parte relevante dos governadores não encerrou sua formação na graduação.
Tarcísio de Freitas, por exemplo, combinou formação militar e Engenharia Civil com MBA, especialização e mestrado. Eduardo Leite cursou uma especialização na Columbia University e, posteriormente, um mestrado na FGV. Ronaldo Caiado, formado em Medicina, possui mestrado e especialização internacional na área médica.
Eduardo Riedel seguiu um percurso semelhante de aprofundamento acadêmico: depois da graduação em Ciências Biológicas, concluiu mestrado em Zootecnia, especialização em gestão e um programa executivo no INSEAD.
Há ainda trajetórias particularmente orientadas à Administração Pública. Paulo Dantas, formado em Administração de Empresas, fez especialização em Liderança Política e Gestão Pública e possui dois mestrados: um em Políticas Públicas e outro em Administração Pública.
A presença dessas qualificações mostra que, dentro da amostra, a formação complementar aparece tanto em áreas diretamente relacionadas ao campo político e administrativo quanto em especializações técnicas ligadas às profissões de origem dos governadores.
As formações dos 26 governadores
A seguir, a relação apresentada no levantamento do The College:
São Paulo — Tarcísio de Freitas (Republicanos)
Bacharelado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em 1996; bacharelado em Engenharia Civil pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), em 2002; MBA Executivo em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2003; especialização em Aplicações Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), em 2004; e mestrado em Engenharia de Transportes pelo IME, em 2008.
Rio de Janeiro — Cláudio Castro (PL)
Bacharelado em Direito, concluído em 2005.
Minas Gerais — Romeu Zema (Novo)
Bacharelado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), concluído em 1986.
Espírito Santo — Renato Casagrande (PSB)
Bacharelado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em 1983, e bacharelado em Direito pela Faculdade de Direito de Cachoeiro de Itapemirim (FDCI), em 1991.
Paraná — Ratinho Júnior (PSD)
Bacharelado em Marketing e Propaganda pelo Centro Universitário Internacional (Facinter), em 2004; pós-graduação em Direito de Estado pela Pontifícia Universidade Católica de Brasília (PUC-Brasília), em 2011; e especialização em Administração Tributária pela Universidad Complutense de Madrid, em 2013.
Santa Catarina — Jorginho Mello (PL)
Licenciatura em Estudos Sociais pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), em 1977; bacharelado em Administração pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), em 1985; e bacharelado em Direito pela mesma universidade, em 1993.
Rio Grande do Sul — Eduardo Leite (PSD)
Bacharelado em Direito pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em 2007; especialização em Políticas Públicas pela Columbia University, em 2017; e mestrado em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2019.
Goiás — Ronaldo Caiado (PSD)
Bacharelado em Medicina pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, atual UNIRIO, em 1974; especialização em Cirurgia Ortopédica e Traumatologia pela Faculté de Médecine Pitié-Salpêtrière, em Paris, em 1978; e mestrado em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1979.
Mato Grosso — Mauro Mendes (União Brasil)
Bacharelado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), concluído em 1985.
Mato Grosso do Sul — Eduardo Riedel (PP)
Bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1992; mestrado em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 1995; especialização em Gestão Empresarial e Gestão Estratégica pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2000; e Programa Executivo em Gestão pelo INSEAD, em 2010.
Ceará — Elmano de Freitas (PT)
Bacharelado em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC), concluído em 1995.
Pernambuco — Raquel Lyra (PSD)
Bacharelado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 2001, e pós-graduação em Direito Econômico e de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2003.
Maranhão — Carlos Brandão (sem partido)
Bacharelado em Medicina Veterinária pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), concluído em 1982.
Piauí — Rafael Fonteles (PT)
Bacharelado em Matemática pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), em 2004, e mestrado em Economia Matemática pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), em 2006.
Paraíba — João Azevêdo (PSB)
Bacharelado em Engenharia Civil pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em 1978, e pós-graduação em Metodologia do Ensino Técnico pelo Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba (CEFET-PB), em 1980.
Rio Grande do Norte — Fátima Bezerra (PT)
Licenciatura em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), concluída em 1980.
Alagoas — Paulo Dantas (MDB)
Bacharelado em Administração de Empresas pelo Centro Universitário Cesmac, em 2001; especialização em Liderança Política e Gestão Pública pelo CLP-FAAP, em 2010; mestrado em Políticas Públicas pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), em 2013; e mestrado em Administração Pública pela Universidade de Lisboa, em 2018.
Sergipe — Fábio Mitidieri (PSD)
Bacharelado em Administração pela Universidade Tiradentes (Unit), concluído em 2000.
Bahia — Jerônimo Rodrigues (PT)
Bacharelado em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1992, e mestrado em Desenvolvimento Rural pela mesma universidade, em 1999.
Tocantins — Wanderlei Barbosa (Republicanos)
Declarou ensino superior completo na candidatura, mas a formação não foi encontrada nas fontes públicas consultadas pelo levantamento.
Amazonas — Wilson Lima (União Brasil)
Bacharelado em Comunicação Social e Jornalismo pelo Centro Universitário Nilton Lins, concluído em 2011.
Pará — Helder Barbalho (MDB)
Bacharelado em Administração pela Universidade da Amazônia (UNAMA), em 2002, e MBA Executivo em Gestão Pública pela Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2005.
Acre — Gladson Cameli (PP)
Bacharelado em Engenharia Civil pelo Centro Universitário Luterano de Manaus (ILES/ULBRA Manaus), concluído em 2001.
Amapá — Clécio Luís (União Brasil)
Licenciatura em Geografia pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), em 1996, e especialização em Desenvolvimento Sustentável pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA), em 1999.
Rondônia — Coronel Marcos Rocha (PSD)
Bacharelado em Administração de Empresas pelo Centro de Ensino São Lucas, em 2004; pós-graduação em Metodologia do Ensino Superior, em 2006; pós-graduação em Educação, em 2007; e pós-graduação em Análise de Sistemas, em 2008, todas pelo Centro de Ensino São Lucas.
Roraima — Antonio Denarium (PP)
Declarou ensino superior completo na candidatura, mas a formação não foi encontrada nas fontes públicas consultadas pelo levantamento.
Um grupo acadêmico diverso, sem uma trajetória única
Embora três áreas concentrem parte expressiva das graduações, o conjunto dos governadores está longe de apresentar uma formação acadêmica padronizada.
Medicina, Medicina Veterinária, Matemática, Pedagogia, Geografia, Ciências Biológicas, Comunicação Social, Marketing, Estudos Sociais e Ciências Militares também aparecem no levantamento. Há governadores com apenas uma graduação identificada e outros com trajetórias que incluem diversas especializações e títulos de pós-graduação.
Também não há uma única instituição funcionando como principal porta de entrada para a política estadual. Mesmo a FGV, que lidera em recorrência, aparece sobretudo como destino de formação complementar e reúne apenas parte dos 26 governadores.
O levantamento, portanto, permite identificar concentrações, mas não estabelecer uma relação entre determinado curso, universidade ou nível de escolaridade e desempenho político. A formação acadêmica é apenas uma das dimensões das trajetórias de quem chega ao comando dos estados.
Distrito Federal
Embora o Distrito Federal não seja um estado, o levantamento também registra a formação de seu governador.
Ibaneis Rocha (MDB) é bacharel em Direito pelo Centro Universitário de Brasília, possui pós-graduação em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduação em Processo Civil pelo Instituto Brasil Extensão e Pós-Graduação.
Metodologia
O levantamento foi realizado pelo The College a partir de dados públicos sobre a formação acadêmica dos governadores dos 26 estados brasileiros no mandato de 2023 a 2026. Foram consultadas biografias oficiais, perfis institucionais e outras fontes públicas disponíveis.
Foram consideradas graduações, pós-graduações, especializações, MBAs, mestrados e outras formações complementares identificadas nas fontes utilizadas.
As contagens por área não são excludentes: um mesmo governador pode aparecer em mais de uma categoria quando possui duas ou mais graduações. É o caso, por exemplo, de Renato Casagrande e Jorginho Mello.
No caso de Wanderlei Barbosa, do Tocantins, e Antonio Denarium, de Roraima, ambos declararam possuir ensino superior completo, mas a formação específica não foi encontrada nas fontes públicas consultadas. Por isso, o levantamento não atribui curso ou instituição a esses dois casos.
Publicado em [11-05-2026]
