O Supremo Tribunal Federal ocupa o topo do Poder Judiciário brasileiro. Suas decisões alcançam temas constitucionais, políticos, econômicos e sociais e, por isso, a trajetória de quem chega a uma de suas cadeiras costuma ser acompanhada de perto — inclusive do ponto de vista acadêmico.

Para quem pretende seguir carreira no Direito, observar a formação dos ministros ajuda a colocar em perspectiva um aspecto importante da profissão: não existe uma única trajetória educacional que leve ao STF.

Dados compilados pelo The College a partir de informações públicas mostram currículos bastante diferentes entre os integrantes da Corte. Há ministros com mestrado e doutorado concluídos, outros que chegaram ao doutorado sem concluir um mestrado e também aqueles cuja formação acadêmica formal, entre os níveis analisados, termina na graduação.

Essa diversidade está de acordo com as próprias regras para a nomeação. A Constituição Federal não estabelece mestrado nem doutorado como requisitos para integrar o Supremo.

Pós-graduação é frequente, mas não é regra

A graduação em Direito é o ponto em comum das trajetórias apresentadas, mas as semelhanças diminuem quando a análise chega à pós-graduação.

Gilmar Mendes, por exemplo, aparece no levantamento com graduação pela Universidade de Brasília, além de mestrado e doutorado pela Universidade de Münster, na Alemanha.

Edson Fachin também concluiu os três níveis considerados: graduou-se pela UFPR e realizou mestrado e doutorado na PUC-SP. Nunes Marques, por sua vez, formou-se pela UFPI, fez mestrado na Universidade Autónoma de Lisboa e doutorado na Universidade de Salamanca.

André Mendonça apresenta outra combinação internacional: graduou-se no Centro Universitário de Bauru e concluiu mestrado e doutorado pela Universidade de Salamanca.

O levantamento também mostra trajetórias em que o doutorado foi concluído sem que houvesse um mestrado finalizado. Luiz Fux graduou-se pela UERJ, iniciou mestrado na mesma universidade, mas não o concluiu, e posteriormente obteve o doutorado também pela UERJ. Alexandre de Moraes aparece em situação semelhante: concluiu graduação e doutorado pela USP e iniciou um mestrado na própria instituição, que não foi finalizado.

Esses casos podem parecer incomuns para quem está mais familiarizado com a estrutura acadêmica contemporânea, na qual mestrado e doutorado costumam aparecer como etapas sucessivas. Historicamente, porém, determinadas instituições e programas admitiram trajetórias diferentes, inclusive o ingresso no doutorado sem a conclusão prévia de um mestrado.

USP e Universidade de Salamanca se repetem nas trajetórias

Outro padrão identificado no levantamento é a recorrência de algumas instituições.

A Universidade de São Paulo aparece na graduação de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Também consta no doutorado não concluído de Cármen Lúcia e no mestrado não concluído de Alexandre de Moraes.

A Universidade de Salamanca, na Espanha, também aparece mais de uma vez entre os títulos de pós-graduação. Nunes Marques concluiu o doutorado na instituição, enquanto André Mendonça realizou ali tanto o mestrado quanto o doutorado.

A repetição dessas universidades mostra uma concentração institucional dentro da pequena amostra analisada, mas não permite concluir que estudar em determinada instituição aumente, por si só, as chances de chegar ao Supremo. As nomeações para o STF obedecem a critérios constitucionais e a um processo político-institucional que vai muito além da formação acadêmica.

Nem todos os ministros têm mestrado ou doutorado

Os dados também chamam atenção pelo que não aparece nos currículos.

Dias Toffoli, graduado pela USP, não possui mestrado nem doutorado segundo o levantamento. Cristiano Zanin, formado pela PUC-SP, também aparece sem títulos nesses dois níveis.

Flávio Dino, por outro lado, graduou-se pela UFMA e concluiu mestrado pela UFPE, mas não possui doutorado.

Cármen Lúcia estudou Direito na PUC-MG e concluiu mestrado na UFMG. O levantamento registra ainda um doutorado iniciado na USP, mas não concluído.

Essas diferenças tornam importante separar dois conceitos que frequentemente se misturam no debate sobre carreiras jurídicas: qualificação acadêmica e requisitos para o exercício de uma função pública.

Mestrado e doutorado são títulos voltados ao aprofundamento acadêmico e à pesquisa. Em linhas gerais, o mestrado desenvolve formação avançada em determinada área e capacidade de investigação, enquanto o doutorado envolve uma pesquisa de maior profundidade e a produção de uma contribuição original para o campo estudado.

Esses títulos podem compor uma trajetória profissional sólida, especialmente para quem pretende atuar na academia, mas não constituem exigência constitucional para a nomeação ao STF.

O que é necessário para se tornar ministro do STF

A Constituição estabelece três requisitos centrais para que uma pessoa possa ser escolhida para integrar o Supremo Tribunal Federal:

  1. ter mais de 35 e menos de 70 anos;

  2. possuir notável saber jurídico;

  3. ter reputação ilibada.

Além desses critérios, a escolha não ocorre por concurso público ou progressão acadêmica. O nome é indicado pelo presidente da República e precisa ser aprovado pela maioria absoluta do Senado Federal antes da nomeação.

A formação acadêmica pode contribuir para a construção de uma trajetória jurídica reconhecida, mas os títulos, isoladamente, não determinam quem poderá ocupar uma cadeira na Corte.

Por isso, comparar os currículos acadêmicos permite observar diferenças de formação, mas não é suficiente para avaliar individualmente a capacidade ou a adequação de cada ministro ao cargo. Da mesma forma, a presença ou a ausência de mestrado ou doutorado não permite concluir, por si só, quais fatores determinaram uma nomeação.

Formação acadêmica dos ministros

Gilmar Mendes — posse em 2002
Graduação: Universidade de Brasília
Mestrado: Universidade de Münster
Doutorado: Universidade de Münster

Cármen Lúcia — posse em 2006
Graduação: PUC-MG
Mestrado: UFMG
Doutorado: USP — não concluído

Dias Toffoli — posse em 2009
Graduação: USP
Mestrado: não possui
Doutorado: não possui

Luiz Fux — posse em 2011
Graduação: UERJ
Mestrado: UERJ — não concluído
Doutorado: UERJ

Edson Fachin — posse em 2015
Graduação: UFPR
Mestrado: PUC-SP
Doutorado: PUC-SP

Alexandre de Moraes — posse em 2017
Graduação: USP
Mestrado: USP — não concluído
Doutorado: USP

Nunes Marques — posse em 2020
Graduação: UFPI
Mestrado: Universidade Autónoma de Lisboa
Doutorado: Universidade de Salamanca

André Mendonça — posse em 2021
Graduação: Centro Universitário de Bauru
Mestrado: Universidade de Salamanca
Doutorado: Universidade de Salamanca

Cristiano Zanin — posse em 2023
Graduação: PUC-SP
Mestrado: não possui
Doutorado: não possui

Flávio Dino — posse em 2024
Graduação: UFMA
Mestrado: UFPE
Doutorado: não possui

O currículo acadêmico mostra apenas parte da trajetória

A comparação evidencia que, mesmo entre juristas que chegaram ao topo do Judiciário, não há uma trajetória acadêmica padronizada. Alguns acumularam formação até o doutorado; outros construíram suas carreiras sem avançar formalmente além da graduação ou do mestrado.

Para estudantes de Direito, esse é um dos principais pontos que o levantamento permite observar: títulos acadêmicos são uma dimensão relevante da formação jurídica, mas representam apenas uma parte de carreiras que também podem envolver advocacia, magistratura, Ministério Público, docência, produção jurídica e atuação no serviço público.

O levantamento, portanto, não mede competência jurídica nem estabelece uma hierarquia entre os ministros. Ele mostra como diferentes trajetórias acadêmicas convivem na mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro.

Metodologia

O levantamento realizado pelo The College reúne informações públicas sobre graduação, mestrado e doutorado dos ministros apresentados no material, tendo como uma das referências as informações disponibilizadas pelo Supremo Tribunal Federal.

Foram considerados três níveis de formação — graduação, mestrado e doutorado — com diferenciação entre títulos concluídos, cursos não concluídos e níveis de formação que o profissional não possui.

O material original também apresentava Jorge Messias como “possível futuro ministro”. A informação, porém, deixou de refletir a situação atual. Messias foi indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ocupar a vaga aberta pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso, mas sua indicação foi rejeitada pelo Plenário do Senado Federal em 29 de abril de 2026. Por esse motivo, ele não integra a lista de ministros acima.

Em setembro de 2026, o portal oficial do STF apresenta dez ministros na composição do Plenário, enquanto a cadeira anteriormente ocupada por Barroso permanece sem um novo integrante confirmado.

Publicado em [10-04-2026]