A trajetória acadêmica dos presidentes brasileiros ajuda a revelar como a formação das elites políticas mudou — e, em alguns períodos, permaneceu concentrada — ao longo da República. Desde 1889, diferentes instituições de ensino tiveram entre seus alunos nomes que mais tarde chegariam ao Palácio do Planalto, mas poucas aparecem de forma recorrente.
O levantamento realizado pelo The College mostra uma diferença expressiva entre as duas primeiras colocadas e o restante da lista. A Universidade de São Paulo (USP), considerando também instituições que posteriormente foram incorporadas à universidade, reúne 13 presidentes da República. Em seguida aparece a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), também considerando suas escolas precursoras, com dez.
Depois delas, a distribuição se torna bem mais pulverizada. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) aparece com três presidentes, enquanto Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) registram dois cada. Outras cinco instituições da lista têm um presidente.
O retrato não significa que frequentar determinada universidade aumente a probabilidade de chegar à Presidência. Ele mostra, sobretudo, como algumas instituições ocuparam posições centrais na formação jurídica, militar e intelectual das classes dirigentes brasileiras em diferentes momentos históricos.
A USP concentra 13 presidentes, em grande parte pela tradição do Largo de São Francisco
A liderança da USP está diretamente ligada à Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, criada no século XIX e incorporada à universidade quando a USP foi fundada, em 1934.
Pelo critério adotado pelo levantamento, 13 presidentes passaram pela instituição ou por escolas que hoje fazem parte dela: Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Venceslau Brás, Delfim Moreira, Artur Bernardes, Washington Luís, José Linhares, Nereu Ramos, Jânio Quadros, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer.
A própria USP registra uma lista de 14 pessoas que chegaram à Presidência ou foram eleitas para ela, pois inclui também Júlio Prestes. Há uma diferença metodológica importante: Prestes venceu a eleição presidencial de 1930, mas não tomou posse. Como o levantamento do The College considera quem efetivamente exerceu a Presidência, ele não integra a contagem de 13.
A concentração também reflete um período específico da história brasileira. Na Primeira República, a formação jurídica ocupava espaço especialmente relevante entre as elites políticas. Prudente de Morais, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Venceslau Brás e Delfim Moreira, por exemplo, estudaram na antiga Faculdade de Direito de São Paulo, hoje vinculada à USP.
Fernando Henrique Cardoso representa uma trajetória diferente dentro da mesma instituição: estudou e posteriormente foi professor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
As escolas militares formam o segundo grande eixo da lista
Na segunda colocação está a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), com dez presidentes quando o levantamento agrupa também as instituições precursoras responsáveis pela formação de oficiais do Exército antes da criação da atual academia.
A lista reúne Castelo Branco, Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Jair Bolsonaro, Hermes da Fonseca e Eurico Gaspar Dutra.
Essa ressalva histórica é essencial. A AMAN, em sua configuração e sede atuais, é posterior à formação de vários desses presidentes. Parte deles estudou em escolas militares anteriores, como a Escola Militar do Realengo, cuja tradição institucional antecede a academia de Resende. Registros históricos sobre o ensino militar identificam, por exemplo, Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo como egressos do Realengo.
Por isso, os dez nomes não devem ser interpretados como dez ex-alunos do atual campus da AMAN, mas como integrantes da mesma linhagem histórica de formação de oficiais adotada pelo levantamento.
O peso desse grupo acompanha outro aspecto da história republicana: militares ocuparam a Presidência tanto nos primeiros anos após a Proclamação da República quanto durante o regime militar iniciado em 1964.
Fora dos dois primeiros lugares, a formação presidencial se espalha pelo país
A distância para a terceira colocada é significativa. A UFRGS aparece com três presidentes: Getúlio Vargas, João Goulart e Dilma Rousseff.
Logo depois, duas instituições têm dois nomes cada. A Universidade Federal de Pernambuco aparece com Nilo Peçanha e Epitácio Pessoa. Os dois passaram pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, uma das instituições jurídicas mais antigas do país. A Assembleia Legislativa de Pernambuco também registra ambos entre os ex-alunos que chegaram à Presidência.
A UFMG reúne Carlos Luz e Juscelino Kubitschek. JK formou-se em Medicina pela universidade. A relação entre a UFMG e presidentes brasileiros é mais ampla do que o ranking de formados sugere: a própria instituição também registra outros presidentes entre pessoas que passaram por suas unidades, mas o levantamento do The College utiliza o critério de formação concluída para compor a lista.
A partir daí, cinco instituições aparecem empatadas, com um presidente cada.
Engenharia, Economia, Direito e formação militar aparecem entre os casos individuais
A Universidade Federal de Alagoas (UFAL) aparece por Fernando Collor, formado em Economia em 1972. A informação consta na biografia oficial do ex-presidente mantida pela Presidência da República.
A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) é representada por Itamar Franco. Ele concluiu Engenharia Civil e Eletrotécnica na Escola de Engenharia em 1954, e a própria universidade o destaca entre seus egressos.
A Universidade Federal do Maranhão (UFMA) aparece com José Sarney, enquanto a Universidade Federal Fluminense (UFF) integra o ranking por Ranieri Mazzilli.
Há ainda duas instituições ligadas à formação militar. A Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) aparece com Eurico Gaspar Dutra, que concluiu, em 1922, o curso da então Escola de Estado-Maior. A instituição recebeu a denominação atual em 1955.
Já o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro registra a passagem de Hermes da Fonseca. Segundo o Arquivo Nacional, o futuro presidente frequentou o curso noturno da instituição antes de seguir sua formação no Exército.
Ranking completo das instituições
Universidade de São Paulo (USP) — 13 presidentes: Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Venceslau Brás, Delfim Moreira, Artur Bernardes, Washington Luís, José Linhares, Nereu Ramos, Jânio Quadros, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer.
Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) — 10 presidentes: Castelo Branco, Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel, João Figueiredo, Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Jair Bolsonaro, Hermes da Fonseca e Eurico Gaspar Dutra.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) — 3 presidentes: Getúlio Vargas, João Goulart e Dilma Rousseff.
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) — 2 presidentes: Nilo Peçanha e Epitácio Pessoa.
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) — 2 presidentes: Carlos Luz e Juscelino Kubitschek.
Universidade Federal de Alagoas (UFAL) — 1 presidente: Fernando Collor.
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) — 1 presidente: Itamar Franco.
Universidade Federal do Maranhão (UFMA) — 1 presidente: José Sarney.
Universidade Federal Fluminense (UFF) — 1 presidente: Ranieri Mazzilli.
Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) — 1 presidente: Eurico Gaspar Dutra.
Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro — 1 presidente: Hermes da Fonseca.
Duas tradições respondem por grande parte da recorrência
O principal padrão do levantamento está menos na quantidade de universidades representadas e mais na concentração do topo. USP e AMAN, pelo critério histórico adotado, somam 23 ocorrências de presidentes. Como um mesmo presidente pode aparecer em mais de uma instituição, esse número não corresponde a 23 indivíduos necessariamente exclusivos entre si.
Também há uma diferença temporal importante. A presença da USP está fortemente associada à antiga Faculdade de Direito de São Paulo e, portanto, à predominância de bacharéis em Direito entre dirigentes da Primeira República. Já o peso das escolas militares atravessa diferentes períodos, dos primeiros governos republicanos aos presidentes do regime militar.
As demais instituições mostram uma diversificação maior de trajetórias, incluindo Medicina, Engenharia, Economia e outras formações. O ranking, portanto, registra mais do que a recorrência de determinadas universidades: ele acompanha mudanças nas próprias rotas educacionais pelas quais passaram as elites políticas brasileiras.
Metodologia
O levantamento foi realizado pelo The College a partir das trajetórias acadêmicas dos presidentes da República.
Para permitir comparações históricas, as instituições foram apresentadas por suas denominações atuais e, quando necessário, foram consideradas escolas precursoras que posteriormente deram origem ou foram incorporadas às instituições atuais. Esse critério é especialmente relevante para a USP e para a AMAN.
Um mesmo presidente pode aparecer em mais de uma instituição caso tenha estudado em ambas. A contagem considera pessoas que efetivamente exerceram a Presidência; por isso, Júlio Prestes, eleito em 1930 mas impedido de tomar posse, não entra entre os 13 presidentes contabilizados para a USP. A lista deve ser lida como um retrato das trajetórias educacionais registradas, e não como uma medida de influência das universidades sobre a carreira política.
