Entrar na faculdade não significa necessariamente chegar ao diploma. Entre o início de uma graduação e sua conclusão, questões financeiras, familiares, profissionais, acadêmicas e de saúde podem alterar — ou interromper — a trajetória de um estudante.

Um levantamento da Trellis Strategies ajuda a dimensionar quais obstáculos aparecem com maior frequência nesse processo. Publicado em abril de 2026, o relatório Some College, No Credential Survey ouviu pessoas que chegaram a ingressar no ensino superior nos Estados Unidos, mas deixaram a faculdade sem obter uma credencial.

Entre os 2.923 participantes que responderam à pergunta sobre os fatores que contribuíram para sua saída, 35% mencionaram dificuldades financeiras pessoais. Foi o motivo mais frequente da pesquisa. Logo depois aparecem responsabilidades familiares ou pessoais, citadas por 32%, e trabalho e obrigações profissionais, por 27%.

Os números indicam que a evasão universitária, ao menos dentro da amostra analisada, vai muito além de desempenho acadêmico ou desinteresse pelo curso. Entre os sete fatores mais citados, seis estão relacionados a condições financeiras, pessoais, profissionais ou de saúde.

Dinheiro aparece no topo — e de diferentes formas

As dificuldades financeiras não aparecem apenas uma vez no levantamento. Elas atravessam diferentes posições do ranking.

Além dos 35% que apontaram dificuldades financeiras pessoais, 25% mencionaram mensalidade e custos da faculdade. Outros 22% indicaram problemas com bolsas ou auxílio financeiro.

Os três fatores são distintos. Um estudante pode enfrentar dificuldades para sustentar suas despesas pessoais mesmo que consiga pagar a instituição; outro pode ter condições de arcar com o cotidiano, mas não com a mensalidade; e há ainda quem dependa de bolsas ou outros mecanismos de auxílio para permanecer matriculado.

Como a pesquisa permitia selecionar mais de uma resposta, essas situações também podem se sobrepor.

O resultado é que questões relacionadas a dinheiro ocupam três das seis primeiras posições do levantamento. Isso não significa que todo abandono tenha origem financeira, nem que seja possível somar diretamente os três percentuais para chegar a uma parcela única de estudantes afetados. Mas mostra que a dimensão econômica aparece de maneira recorrente entre as razões relatadas pelos participantes.

Família e trabalho competem com o tempo disponível para estudar

O segundo motivo mais citado não está diretamente ligado à universidade. Responsabilidades familiares ou pessoais foram mencionadas por 32% dos respondentes, apenas três pontos percentuais abaixo das dificuldades financeiras pessoais.

Trabalho e obrigações profissionais aparecem logo depois, com 27%.

Os dois dados ajudam a mostrar que a experiência universitária não ocorre isoladamente. Parte dos estudantes precisa conciliar a graduação com emprego, cuidado de familiares e outras responsabilidades fora da sala de aula.

Esse aspecto é especialmente relevante para interpretar o conceito de evasão. Deixar um curso pode ser tratado como uma decisão acadêmica, mas os resultados da pesquisa mostram que, para muitos participantes, fatores externos à instituição tiveram peso importante na interrupção da formação.

Problemas de saúde reforçam essa leitura: foram citados por 24% dos estudantes, ocupando a quinta posição.

Dificuldades acadêmicas aparecem, mas não lideram o ranking

Dificuldades acadêmicas aparecem apenas na sétima posição, mencionadas por 19% dos participantes.

O dado chama atenção porque desempenho e adaptação aos estudos estão entre as explicações mais imediatamente associadas ao abandono universitário. Na pesquisa da Trellis Strategies, porém, seis fatores foram apontados com maior frequência.

Isso não torna a dimensão acadêmica irrelevante. Como os participantes podiam assinalar diferentes motivos, dificuldades com estudos podem coexistir com pressão financeira, trabalho, saúde ou responsabilidades familiares. O que o levantamento permite observar é apenas que, quando ex-estudantes foram convidados a indicar os fatores que contribuíram para sua saída, questões externas ao desempenho acadêmico apareceram com maior frequência.

Na sequência estão falta de cursos ou áreas de formação adequadas, citada por 16%, e falta de serviços e suporte institucional, com 13%.

Esses resultados colocam também as próprias instituições dentro da discussão sobre permanência. Oferta de cursos, orientação, atendimento e estruturas de suporte aparecem menos do que as dificuldades financeiras e pessoais, mas ainda fazem parte das razões relatadas por uma parcela dos participantes.

A experiência no campus é o motivo menos citado entre os dez principais

Vida no campus ou localização da faculdade fecha o ranking, com 10% das respostas.

É uma proporção bem menor do que a registrada pelos principais fatores. Dificuldades financeiras pessoais, por exemplo, foram apontadas por uma parcela 25 pontos percentuais maior.

A diferença sugere que, dentro desta amostra, elementos mais diretamente ligados à experiência física ou à localização da instituição tiveram menos peso do que pressões econômicas, familiares, profissionais e de saúde.

Ainda assim, 10% não é um número desprezível. Para parte dos estudantes, deslocamento, localização ou características da vida universitária também podem participar de um conjunto mais amplo de razões para deixar o curso.

Os 10 principais motivos de abandono da faculdade

De acordo com o Some College, No Credential Survey, os fatores mais citados pelos participantes foram:

  1. Dificuldades financeiras pessoais — 35%

  2. Responsabilidades familiares ou pessoais — 32%

  3. Trabalho e obrigações profissionais — 27%

  4. Mensalidade e custos da faculdade — 25%

  5. Problemas de saúde — 24%

  6. Problemas com bolsas ou auxílio financeiro — 22%

  7. Dificuldades acadêmicas — 19%

  8. Falta de cursos ou áreas de formação adequadas — 16%

  9. Falta de serviços e suporte institucional — 13%

  10. Vida no campus ou localização da faculdade — 10%

Como cada participante podia apontar mais de um fator, os percentuais não somam 100%.

Evasão aparece como resultado de obstáculos que se acumulam

O principal padrão do levantamento está menos em um motivo isolado e mais na diversidade das razões apresentadas.

Entre dinheiro, família, trabalho, saúde, questões acadêmicas e características da instituição, o abandono aparece como um fenômeno potencialmente multidimensional. Uma mesma pessoa pode enfrentar simultaneamente dificuldades para pagar despesas, trabalhar muitas horas e cuidar de familiares, por exemplo.

Por isso, os dados não permitem afirmar que existe uma causa única para a evasão universitária. Também não mostram que um fator necessariamente provoca o outro. O que a pesquisa registra é a frequência com que determinados motivos foram associados pelos próprios ex-estudantes à decisão de interromper a formação.

Há ainda uma limitação geográfica importante. A pesquisa foi realizada nos Estados Unidos e não deve ser interpretada como um retrato direto da realidade brasileira. Sistemas de financiamento, mensalidades, bolsas, mercado de trabalho e características das instituições de ensino são diferentes entre os países.

Ainda assim, o levantamento oferece uma referência relevante para compreender como fatores externos à sala de aula podem pesar na permanência universitária — e por que analisar evasão apenas a partir do desempenho acadêmico deixa de fora parte importante da experiência dos estudantes.

Metodologia

Os dados são do relatório Some College, No Credential Survey, produzido pela Trellis Strategies e publicado em abril de 2026.

A pesquisa ouviu ex-estudantes que ingressaram no ensino superior, mas deixaram a faculdade sem concluir a formação. Ao todo, foram recebidas 3.182 respostas. Desse grupo, 2.923 participantes responderam especificamente à pergunta sobre os fatores que contribuíram para sua saída.

A amostra reúne pessoas vinculadas a 58 instituições, distribuídas por 13 estados dos Estados Unidos.

Os participantes podiam selecionar mais de um motivo para o abandono, razão pela qual os percentuais apresentados não somam 100%. Por se tratar de um estudo realizado nos Estados Unidos, os resultados devem ser interpretados dentro desse contexto e não podem ser automaticamente generalizados para o Brasil.