Escolher uma faculdade de Economia envolve mais do que comparar mensalidade, reputação, localização ou colocação no mercado de trabalho. Embora praticamente todos os cursos relevantes passem por disciplinas como microeconomia, macroeconomia, estatística e econometria, a forma como cada instituição organiza essa formação pode variar de maneira significativa.

Algumas escolas concentram maior parte da graduação na teoria econômica dominante, em modelos formais e em métodos quantitativos. Outras combinam esse repertório com economia política, história econômica, desenvolvimento, estruturalismo, pós-keynesianismo e outras tradições críticas ao chamado mainstream.

Foi a partir dessas diferenças que o The College classificou 15 das principais faculdades de Economia de São Paulo em quatro grupos: ortodoxa mainstream, pluralista-ortodoxa, pluralista-heterodoxa e heterodoxa pura.

O resultado sugere um padrão particularmente claro. Entre as instituições privadas analisadas, predomina a orientação ortodoxa. Entre as públicas, o espectro se desloca em direção ao pluralismo e à heterodoxia.

As privadas se concentram no mainstream

Das 15 instituições analisadas, sete foram classificadas como ortodoxas mainstream: FGV, Insper, Belavista, Mackenzie, Ibmec, FECAP e FAAP.

Isso significa, dentro dos critérios utilizados pelo levantamento, que seus cursos apresentam maior proximidade com a teoria econômica dominante, normalmente associada a uma presença forte de microeconomia e macroeconomia formais, métodos quantitativos, econometria e análise de mercados.

A classificação não significa que essas instituições ignorem história econômica, desenvolvimento, política econômica ou autores de outras tradições. A diferença está no peso relativo dado a cada abordagem ao longo da graduação.

FGV e Insper, por exemplo, aparecem no mesmo grupo de Mackenzie, Ibmec, FECAP, FAAP e Belavista. O agrupamento mostra que, apesar das diferenças de perfil institucional e de proposta acadêmica existentes entre elas, há uma convergência maior na orientação econômica predominante identificada pelo levantamento.

As sete instituições desse grupo representam quase metade da amostra analisada.

USP aparece em uma posição intermediária

A USP é o único caso classificado pelo The College como pluralista-ortodoxa.

A categoria procura representar cursos em que a formação predominante ainda está mais próxima da tradição ortodoxa, mas que apresentam uma abertura maior a outras escolas de pensamento e abordagens dentro da própria graduação.

Essa posição intermediária é relevante porque ajuda a mostrar que a divisão entre ortodoxia e heterodoxia não funciona necessariamente como uma escolha binária.

Um curso pode apresentar uma base quantitativa e teórica fortemente vinculada ao mainstream e, ao mesmo tempo, reservar espaço considerável para história econômica, pensamento econômico, desenvolvimento e abordagens alternativas.

Por isso, a classificação utilizada pelo The College deve ser entendida como um espectro, e não como quatro compartimentos completamente isolados.

Nas públicas, o eixo muda em direção ao pluralismo

O contraste mais evidente do levantamento aparece quando se observam as universidades públicas.

PUC-SP, Unesp, Unifesp, UFSCar e UFABC foram classificadas como pluralistas-heterodoxas. A PUC-Campinas, embora privada, também aparece nesse grupo.

São seis instituições nessa categoria — o segundo maior bloco da análise.

A classificação indica cursos em que diferentes tradições do pensamento econômico convivem, mas com presença relativamente maior de perspectivas heterodoxas do que nos grupos anteriores.

Nesse universo, disciplinas e debates relacionados a economia política, desenvolvimento econômico, história econômica, estruturalismo e outras correntes podem ocupar espaço mais destacado ao lado das ferramentas tradicionais de microeconomia, macroeconomia e métodos quantitativos.

O padrão geográfico e institucional é difícil de ignorar: enquanto a maior parte das faculdades privadas da amostra foi colocada no grupo ortodoxo mainstream, boa parte das universidades públicas aparece na direção oposta do espectro.

Isso não permite concluir que universidades públicas sejam necessariamente heterodoxas ou que instituições privadas sejam necessariamente ortodoxas. O levantamento cobre um conjunto específico de faculdades de São Paulo. Ainda assim, dentro dessa amostra, a diferença é visível.

Unicamp é o único caso classificado como heterodoxo puro

Entre todas as instituições analisadas, apenas a Unicamp foi classificada como heterodoxa pura.

Na metodologia adotada pelo The College, essa categoria representa o extremo do espectro em que a tradição heterodoxa ocupa posição predominante na identidade acadêmica do curso.

Isso não significa ausência de ferramentas quantitativas ou das bases convencionais da formação econômica. Um economista continua precisando estudar conceitos fundamentais da área independentemente da orientação predominante da instituição.

A distinção está no espaço relativo dado às diferentes escolas de pensamento e na forma como a própria Economia é apresentada ao aluno.

Nesse sentido, a Unicamp aparece como uma exceção dentro da amostra: há várias instituições classificadas como pluralistas-heterodoxas, mas somente uma em que a heterodoxia foi considerada suficientemente predominante para justificar a categoria mais extrema utilizada no levantamento.

Ortodoxia e heterodoxia não são sinônimos de direita e esquerda

Uma das ressalvas mais importantes ao interpretar esse tipo de classificação é evitar transformar orientação acadêmica em posicionamento político.

Uma faculdade considerada mais ortodoxa não é, por definição, uma faculdade “de direita”. Da mesma forma, uma instituição classificada como heterodoxa não deve ser automaticamente tratada como “de esquerda”.

Ortodoxia e heterodoxia se referem principalmente a tradições de pensamento, metodologias e formas diferentes de analisar fenômenos econômicos.

De maneira simplificada, abordagens mais ortodoxas costumam dar maior peso a modelos formais, otimização, equilíbrio, métodos quantitativos e instrumentos associados ao mainstream contemporâneo da profissão.

Já o universo heterodoxo reúne diferentes tradições que podem questionar pressupostos, métodos ou prioridades do mainstream. Entre elas estão correntes como estruturalismo e pós-keynesianismo, além de abordagens que dão maior destaque à economia política, à história econômica e ao desenvolvimento.

Mesmo essa separação, porém, é simplificadora. Há enorme diversidade dentro de cada campo, e economistas podem utilizar ferramentas de tradições distintas dependendo do problema analisado.

Como se dividem as 15 faculdades analisadas

A classificação completa elaborada pelo The College ficou assim:

Instituição

Classificação

FGV

Ortodoxa mainstream

Insper

Ortodoxa mainstream

Belavista

Ortodoxa mainstream

Mackenzie

Ortodoxa mainstream

Ibmec

Ortodoxa mainstream

FECAP

Ortodoxa mainstream

FAAP

Ortodoxa mainstream

USP

Pluralista-ortodoxa

PUC-SP

Pluralista-heterodoxa

Unesp

Pluralista-heterodoxa

Unifesp

Pluralista-heterodoxa

UFSCar

Pluralista-heterodoxa

UFABC

Pluralista-heterodoxa

PUC-Campinas

Pluralista-heterodoxa

Unicamp

Heterodoxa pura

Em números, são sete instituições ortodoxas mainstream, uma pluralista-ortodoxa, seis pluralistas-heterodoxas e uma heterodoxa pura.

A distribuição também evidencia que os extremos não têm o mesmo peso. Enquanto o grupo ortodoxo mainstream reúne praticamente metade da amostra, somente uma instituição foi colocada no extremo heterodoxo. Entre os dois polos, sete cursos ocupam posições intermediárias de algum tipo de pluralismo.

O que essa diferença pode significar para o estudante

Para quem está escolhendo onde cursar Economia, conhecer a orientação predominante do curso pode ajudar a entender o tipo de formação acadêmica que encontrará.

Um estudante interessado em modelagem, econometria, mercados e uma trajetória mais próxima do mainstream econômico pode se identificar mais com determinados currículos. Outro, interessado em desenvolvimento, economia política, história econômica e na comparação entre diferentes escolas de pensamento, pode encontrar maior aderência em cursos mais pluralistas ou heterodoxos.

Isso, porém, não transforma uma categoria em melhor do que a outra.

A classificação também não mede qualidade do corpo docente, empregabilidade, rigor acadêmico, produção científica ou reputação da instituição. Uma escola pode ser excelente dentro de diferentes tradições de ensino.

O levantamento serve, portanto, mais como um mapa de orientação intelectual dos cursos do que como um ranking.

Metodologia

A classificação foi elaborada pelo The College, principalmente a partir da análise de grades curriculares, ementas e perfil acadêmico dos cursos.

Não existe uma classificação oficial ou universalmente aceita que determine se cada faculdade de Economia é ortodoxa, pluralista ou heterodoxa. As categorias apresentadas representam uma interpretação editorial do The College sobre a orientação predominante de cada curso.

O levantamento analisa 15 instituições e não deve ser interpretado como uma avaliação de qualidade, um ranking acadêmico ou uma indicação de posicionamento político. As categorias procuram sintetizar diferenças de ênfase entre escolas de pensamento econômico dentro dos cursos analisados.