A formação de médicos que se tornaram referências nacionais raramente termina na graduação. Doutorados, livre-docências, mestrados, especializações e períodos de pesquisa no exterior aparecem com frequência nas trajetórias de profissionais que, além da atuação clínica, construíram carreiras ligadas à pesquisa, ao ensino e a algumas das principais instituições de saúde do país.

Foi a partir desse recorte que o The College analisou a formação acadêmica de médicos reconhecidos em diferentes áreas da medicina brasileira. A seleção reúne nomes da cardiologia, oncologia, neurocirurgia, pediatria, ginecologia, ortopedia, dermatologia, urologia, endocrinologia, oftalmologia, infectologia, gastroenterologia, nefrologia, radiologia, medicina intensiva e cirurgia plástica.

O levantamento não pretende definir quem é o “melhor” médico de cada especialidade. A escolha considerou uma combinação de prestígio profissional, trajetória acadêmica, atuação institucional, reconhecimento público e presença no imaginário popular. O objetivo é outro: observar quais instituições aparecem ao longo da formação de profissionais que atingiram grande projeção em suas respectivas áreas.

E, dentro dessa amostra, um padrão se destaca rapidamente: a forte presença das universidades paulistas, especialmente da Universidade de São Paulo.

A FMUSP concentra quase metade das graduações do recorte

Dos 16 médicos apresentados no material, sete fizeram a graduação em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a FMUSP. São eles Ana Escobar, Denise Steiner, Miguel Srougi, Marcio Mancini, Raul Cutait, Giovanni Guido Cerri e Alexandre Munhoz.

Isso significa que 43,75% dos médicos selecionados começaram sua formação médica na mesma instituição.

A Escola Paulista de Medicina, hoje vinculada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), aparece em seguida, com três graduações: Edmund Chada Baracat, Rubens Belfort Jr. e José Medina Pestana.

A Universidade de Brasília aparece duas vezes, nas trajetórias de Paulo Hoff e Ludhmila Hajjar. Completam o grupo Universidade de Santo Amaro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e Faculdade de Medicina do ABC, cada uma com um médico.

O resultado mostra também uma concentração geográfica expressiva. Considerando FMUSP, Escola Paulista de Medicina/Unifesp, Unisa e Faculdade de Medicina do ABC, 12 dos 16 profissionais fizeram a graduação em instituições do estado de São Paulo.

Esse padrão, porém, deve ser interpretado dentro do próprio recorte. A seleção inclui muitos profissionais ligados historicamente aos grandes centros médicos e acadêmicos paulistas, de modo que os dados não podem ser extrapolados para o conjunto da medicina brasileira.

A presença da USP aumenta quando toda a trajetória acadêmica é considerada

A concentração se torna ainda mais evidente quando a análise deixa de considerar apenas a graduação.

Em 12 das 16 trajetórias apresentadas, a Universidade de São Paulo aparece em pelo menos alguma etapa da formação acadêmica. Além dos sete graduados pela FMUSP, profissionais formados em outras universidades passaram posteriormente pela USP em mestrados, doutorados, livre-docências, especializações ou outras etapas.

Roberto Kalil Filho, por exemplo, graduou-se em Medicina pela Universidade de Santo Amaro em 1985, mas posteriormente concluiu doutorado e livre-docência na Faculdade de Medicina da USP.

Paulo Hoff fez Medicina na Universidade de Brasília e pós-doutorado no MD Anderson, nos Estados Unidos, antes de concluir doutorado em Ciências e livre-docência em Oncologia na USP.

Rodrigo Lasmar se formou na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais e, em 2006, concluiu mestrado em Ortopedia, Traumatologia e Reabilitação pela Universidade de São Paulo.

David Uip, graduado pela Faculdade de Medicina do ABC, também construiu parte importante de sua trajetória acadêmica na FMUSP, onde fez mestrado, doutorado e livre-docência.

A recorrência da universidade dentro dessa amostra mostra sobretudo a força de determinados centros acadêmicos na formação de pesquisadores, professores e médicos com carreiras institucionais extensas. Não significa, naturalmente, que passar pela USP seja requisito para alcançar projeção médica — apenas que a instituição aparece com frequência incomum neste grupo específico.

Formação internacional aparece principalmente no pós-doutorado

Outro padrão está na internacionalização. Entre os nomes analisados, os períodos de formação no exterior aparecem sobretudo depois da graduação e da especialização.

Roberto Kalil Filho realizou pós-doutorado em Cardiologia na Johns Hopkins University, em 1991. Paulo Hoff passou pelo University of Texas MD Anderson Medical School at Houston, em 1998.

José Medina Pestana apresenta a trajetória internacional mais extensa entre os perfis exibidos: fez pós-doutorado em Transplante Renal na Cleveland Clinic, em 1988, e pós-doutorado em Transplante Experimental pela University of Oxford, no Reino Unido, em 1989.

Os três exemplos seguem um padrão diferente daquele observado em levantamentos sobre executivos ou empreendedores, nos quais graduações internacionais podem ser mais recorrentes. Neste recorte médico, a base da formação ocorreu integralmente no Brasil, enquanto experiências internacionais foram incorporadas em etapas avançadas da carreira acadêmica.

As trajetórias acadêmicas completas dos médicos analisados

Roberto Kalil Filho — Cardiologia: graduação em Medicina pela Universidade de Santo Amaro (Unisa), em 1985; pós-doutorado em Cardiologia pela Johns Hopkins University, em 1991; doutorado em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP, em 1994; e livre-docência em Cardiologia pela FMUSP, em 1995.

Paulo Hoff — Oncologia: graduação em Medicina pela Universidade de Brasília (UnB), em 1991; pós-doutorado pela University of Texas MD Anderson Medical School at Houston, em 1998; doutorado em Ciências pela USP, em 2007; e livre-docência em Oncologia pela FMUSP, em 2008.

Paulo Niemeyer Filho — Neurocirurgia: graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1975, e doutorado em Neurocirurgia pela Escola Paulista de Medicina, atual Unifesp, em 1983.

Ana Escobar — Pediatria: graduação em Medicina pela FMUSP, em 1983; doutorado em Pediatria pela FMUSP, em 1993; e livre-docência em Pediatria pela mesma instituição, em 2005.

Edmund Chada Baracat — Ginecologia: graduação em Medicina pela Escola Paulista de Medicina, atual Unifesp, em 1976; mestrado em Ginecologia pela Escola Paulista de Medicina, em 1984; doutorado em Ginecologia, em 1985; e livre-docência na área, em 1991.

Rodrigo Lasmar — Ortopedia: graduação em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), em 1995, e mestrado em Ortopedia, Traumatologia e Reabilitação pela USP, em 2006.

Denise Steiner — Dermatologia: graduação em Medicina pela FMUSP, em 1979; doutorado em Ciências Médicas, na área de Dermatologia, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1992; e especialização em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, com ano não especificado no material original.

Miguel Srougi — Urologia: graduação em Medicina pela FMUSP, em 1970; mestrado em Urologia pela USP, em 1975; doutorado em Urologia, em 1978; e livre-docência, em 1985, também pela USP.

Marcio Mancini — Endocrinologia: graduação em Medicina pela FMUSP, em 1986, e doutorado em Endocrinologia pela mesma instituição, em 2005.

Rubens Belfort Jr. — Oftalmologia: graduação em Medicina pela Escola Paulista de Medicina, em 1970; mestrado em Microbiologia, Imunologia e Parasitologia pela mesma instituição, em 1978; doutorado em Oftalmologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1981; doutorado em Microbiologia e Imunologia pela Escola Paulista de Medicina, em 1985; e livre-docência em Oftalmologia pela instituição, em 1988.

David Uip — Infectologia: graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), em 1975; mestrado em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela FMUSP, em 1989; doutorado na mesma área, em 1993; e livre-docência pela FMUSP, em 1996.

Raul Cutait — Gastroenterologia: graduação em Medicina pela FMUSP, em 1973; mestrado em Cirurgia, em 1978; doutorado em Cirurgia, em 1987; e livre-docência em Cirurgia, em 1991, todos pela FMUSP.

José Medina Pestana — Nefrologia: graduação em Medicina pela Escola Paulista de Medicina, em 1979; doutorado em Medicina, na área de Nefrologia, pela Universidade Federal de São Paulo, em 1986; pós-doutorado em Transplante Renal pela Cleveland Clinic, em 1988; pós-doutorado em Transplante Experimental pela University of Oxford, em 1989; e livre-docência pela Unifesp, em 2001.

Giovanni Guido Cerri — Radiologia: graduação em Medicina pela FMUSP, em 1976; doutorado em Patologia, em 1984; e livre-docência em Radiologia, em 1986, ambos pela Faculdade de Medicina da USP.

Ludhmila Hajjar — Medicina Intensiva: graduação em Medicina pela Universidade de Brasília, em 2000; doutorado em Ciências pela FMUSP, em 2010; e livre-docência em Cardiologia pela FMUSP, em 2014.

Alexandre Munhoz — Cirurgia Plástica: graduação em Medicina pela FMUSP, em 1994; mestrado em Cirurgia Plástica, em 2004; doutorado em Cirurgia Plástica, em 2006; e livre-docência em Cirurgia Plástica, em 2014, todos pela Faculdade de Medicina da USP.

O que o recorte permite observar

Mais do que apontar uma instituição vencedora, os dados revelam o peso da carreira acadêmica entre os médicos escolhidos. Doutorado e livre-docência aparecem repetidamente, algo coerente com um grupo formado por profissionais que, em muitos casos, acumularam atuação clínica, pesquisa, docência e posições de liderança hospitalar ou universitária.

Também chama atenção que praticamente toda a graduação dos médicos selecionados tenha ocorrido no Brasil. Mesmo entre profissionais com reconhecimento internacional, as experiências fora do país surgem principalmente como complementação avançada da formação.

A concentração em São Paulo e particularmente na USP é o padrão mais evidente, mas precisa ser lida à luz da própria seleção. Trata-se de um recorte de profissionais reconhecidos, e não de uma amostra representativa dos médicos brasileiros ou de todos os grandes especialistas existentes no país.

Metodologia

O levantamento do The College selecionou médicos de diferentes especialidades a partir de uma combinação de prestígio médico, trajetória acadêmica, atuação institucional, reputação profissional, reconhecimento público e presença no imaginário popular. Os nomes escolhidos não são apresentados como os únicos, maiores ou melhores representantes de suas áreas.

As principais fontes utilizadas foram Currículo Lattes/Escavador, Academia Nacional de Medicina, Academia de Medicina de São Paulo, sites oficiais, perfis institucionais, hospitais, sociedades médicas, CREMESP e outras fontes públicas de apoio.

Algumas informações acadêmicas, especialmente datas e etapas específicas, foram mais difíceis de apurar. O levantamento foi realizado com alto grau de confiança, mas eventuais correções podem ser necessárias.

Há ainda uma diferença entre a legenda original e o material visual enviado: a descrição menciona a seleção de 17 áreas, enquanto o carrossel disponibilizado apresenta 16 perfis de médicos, além da capa. Por isso, as contagens e proporções desta matéria consideram os 16 perfis efetivamente apresentados no material.