Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente no 2º turno, em 25 de outubro, com 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos), contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), que somou 59.826.041 votos, segundo o TSE. O novo mandato vai de 2027 a 2030.

Para entender o que o governo promete para a educação nesse período, o The College leu as 84 páginas do programa de governo registrado pela candidatura, as "Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil". O documento tem 13 capítulos, e a educação ocupa o capítulo 4 (páginas 30 a 34), dividido em educação básica, professores, ensino técnico e ensino superior. Há menções ao tema também nos capítulos de juventude, cultura e saúde.

Cada compromisso foi classificado em quatro tipos: meta (tem número), novo (algo que ainda não existe), ampliar (expandir o que existe, sem número) e manter (continuidade). O retrato que sai dessa leitura é de um plano mais voltado a dar sequência ao que já está em andamento do que a abrir frentes novas.

Só duas propostas têm número

Das promessas para a educação, apenas duas trazem meta quantitativa. A primeira é chegar a 80% das crianças alfabetizadas na idade certa (página 31). Em 2025, segundo o Indicador Criança Alfabetizada do MEC e do Inep, eram 66% das crianças da rede pública.

A segunda é levar internet de qualidade a todas as escolas públicas (página 32). Pelo painel de conectividade do MEC, 78,7% das escolas tinham internet adequada em julho de 2026.

As demais propostas falam em ampliar ou manter, sem quantidade nem prazo. O plano também não informa quanto será investido em educação nem traz um cronograma ano a ano.

As novidades: aprendizagem, telas e universidades

Entre os compromissos classificados como novos, o principal na educação básica é a criação de uma estratégia nacional permanente de recomposição e aceleração da aprendizagem, com foco nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio (página 31).

O plano também propõe regulamentar o uso de telas por faixa etária e aprimorar o ECA Digital (página 24). A proibição do celular nas escolas aparece no documento como medida já realizada.

No ensino superior, a promessa é abrir um novo ciclo de expansão e interiorização das universidades públicas (página 33) e implantar a nova unidade do ITA no Ceará, a Universidade Indígena e a Universidade do Esporte (páginas 33 e 43).

Tempo integral é "absoluta prioridade", mas sem meta

O tempo integral é descrito no plano como "absoluta prioridade", com financiamento pelo Fundeb e apoio do Novo PAC 2 para a construção de escolas (páginas 31 e 32). O texto, porém, não estabelece uma meta de cobertura.

O mesmo vale para outras frentes classificadas como ampliação: construção de creches em parceria com estados e municípios, continuidade da expansão dos Institutos Federais com prioridade para interior e periferias, e mais assistência estudantil (alimentação e moradia) para universitários.

Como continuidade, o plano mantém o Pé-de-Meia, o Piso Nacional do Magistério, o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e os cursinhos populares (CPop). No caso do piso, o documento não fala em reajuste nem em meta salarial. No do Pé-de-Meia, não informa valor nem mudança de regra.

O que Lula prometeu no debate, mas não está no plano

No debate da TV Globo, em 23 de outubro, Lula fez duas promessas para a educação que não aparecem no programa escrito.

A primeira foi "100% de escola de tempo integral" até o ensino médio no próximo mandato. No plano, como visto, o tempo integral não tem meta de cobertura.

A segunda foi universalizar o Pé-de-Meia no ensino médio e estender o programa à universidade. No documento, o compromisso é "continuar e fortalecer" o Pé-de-Meia, e a única versão voltada ao ensino superior é o Pé-de-Meia Licenciatura, destinado a quem se forma para ser professor.

Isso não significa que as promessas do debate deixarão de ser cumpridas. Indica apenas que, por ora, elas não constam do documento oficial da candidatura.

Os temas que ficaram de fora

Alguns assuntos centrais do debate educacional não aparecem como compromisso no programa. O plano não cita escola cívico-militar, BNCC, educação domiciliar nem ensino a distância.

A ausência do ensino a distância chama atenção pelo tamanho do segmento: segundo o Censo da Educação Superior 2024, do Inep, o Brasil tinha 10,2 milhões de matrículas na graduação, e 50,7% delas estavam em cursos a distância.

O documento também não traz metas de desempenho para Ideb, Saeb e Pisa. ProUni e Fies aparecem apenas como balanço do mandato atual, sem promessa para os próximos quatro anos.

Ausência no plano não significa posição contrária. O programa de governo é um documento de diretrizes, não um projeto de lei.

O ponto de partida do novo mandato

Para dimensionar as promessas, vale olhar os indicadores oficiais de educação do mandato atual:

  • Alfabetização na idade certa: de 56% em 2023 para 66% em 2025 na rede pública (Indicador Criança Alfabetizada, MEC/Inep).

  • Matrículas em tempo integral na rede pública: de 15,1% em 2021 para 25,8% em 2025 (Censo Escolar, Inep).

  • Ideb 2025: 6,3 nos anos iniciais, 5,3 nos anos finais e 4,5 no ensino médio, o maior valor da série nas três etapas (eram 6,0, 5,0 e 4,3 em 2023).

  • Pé-de-Meia: 7,2 milhões de estudantes atendidos desde a criação, em 2024, até junho de 2026 (MEC).

  • Leis sancionadas: o novo ensino médio (Lei 14.945/2024) e a proibição do celular nas escolas (Lei 15.100/2025).

Os números ajudam a ler a distância até as metas: a alfabetização precisa subir 14 pontos percentuais para chegar a 80%, e a conectividade, 21,3 pontos para alcançar todas as escolas.

É preciso cautela, porém, ao atribuir esses resultados. A educação básica é executada por estados e municípios, e os indicadores refletem o trabalho das três esferas de governo, não só do federal.

Metodologia

Levantamento realizado pelo The College com base nas 84 páginas do programa de governo de Lula (PT) nas eleições de 2026, Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil. As páginas citadas ao longo do texto são as do próprio plano.

Cada compromisso de educação para 2027-2030 foi classificado em quatro categorias: meta (com número), novo (ainda não existe), ampliar (expandir, sem número) e manter (continuidade). Itens que aparecem só como balanço do mandato atual não foram contados como promessa.

As promessas do debate vêm da transcrição integral do debate da TV Globo, de 23/10/2026. O resultado eleitoral é o oficial do TSE para o 2º turno, de 25/10/2026. Os indicadores vêm de MEC, Inep (Indicador Criança Alfabetizada, Censo Escolar, Censo da Educação Superior e Ideb) e do painel de conectividade do MEC.

O programa de governo é um documento de diretrizes e não tem força de lei. O The College não endossa candidatos.

Fonte: programa de governo de Lula (PT), Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil; TSE, MEC, Inep e IBGE. Elaboração e análise: The College.