Antes dos restaurantes premiados, dos programas de televisão e dos milhões de seguidores nas redes sociais, alguns dos nomes mais conhecidos da gastronomia brasileira percorreram caminhos educacionais bastante diferentes. Há quem tenha passado por escolas tradicionais de hotelaria na Europa, quem tenha escolhido uma graduação diretamente ligada à cozinha e quem tenha chegado ao setor depois de estudar arquitetura, administração ou até engenharia.
O recorte reunido pelo The College inclui 12 nomes ligados à gastronomia e à culinária no Brasil, de chefs de restaurantes premiados a apresentadores e criadores de conteúdo. O que chama atenção é justamente a ausência de um padrão único.
Entre eles estão jurados e ex-jurados do MasterChef Brasil, como Erick Jacquin, Helena Rizzo, Henrique Fogaça e Paola Carosella, mas também nomes como Alex Atala, Claude Troisgros, Rita Lobo, Rodrigo Oliveira, Ana Maria Braga, Rodrigo Hilbert, Otto Vitelleschi e Valentina Calvão.
As trajetórias ajudam a mostrar como a formação de um profissional da cozinha pode acontecer em ambientes muito diferentes — da universidade às escolas técnicas e profissionais, passando pela experiência prática.
Gastronomia não é o único caminho para chegar à cozinha
Entre os 12 nomes apresentados, apenas uma parcela possui graduação diretamente relacionada à gastronomia.
Henrique Fogaça concluiu, em 2004, graduação em Chef Executivo pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). No mesmo ano, Rodrigo Oliveira concluiu o bacharelado em Gastronomia pela Universidade Anhembi Morumbi.
Rita Lobo seguiu outro modelo. Em 1995, fez formação profissional em Culinary Arts, na área de gastronomia, pelo Institute of Culinary Education (ICE). A experiência antecedeu a criação do Panelinha, lançado em 2000, que posteriormente se expandiu para editora, estúdio e canal no YouTube.
Em outros casos, a preparação formal para o setor aconteceu por meio da hotelaria. Erick Jacquin concluiu, em 1982, formação técnica na École Hôtelière de Dun-sur-Auron, na França. Claude Troisgros estudou na École Hôtelière de Thonon-les-Bains, também na França, em 1978.
Alex Atala, por sua vez, realizou em 1990 uma formação técnica em gastronomia na École Hôtelière de Namur, na Bélgica. Anos depois, se tornaria o nome por trás do D.O.M., restaurante que alcançou duas estrelas Michelin e presença no The World's 50 Best Restaurants.
O conjunto mostra uma característica importante do setor: a formação culinária encontrada entre esses profissionais não está restrita ao bacharelado universitário. Cursos técnicos e profissionais aparecem de maneira relevante nas trajetórias analisadas.
França e Bélgica aparecem na formação de três chefs
Outro padrão do levantamento está na presença de escolas europeias entre alguns dos profissionais de gerações anteriores.
Jacquin e Troisgros estudaram hotelaria na França, enquanto Atala realizou sua formação técnica na Bélgica. Os três passaram por instituições europeias entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1990.
Isso não significa que estudar na Europa seja condição para alcançar reconhecimento na gastronomia. O próprio grupo analisado reúne trajetórias bem diferentes. Fogaça e Rodrigo Oliveira, por exemplo, fizeram sua formação superior no Brasil.
Também há uma diferença de perfil entre os cursos. Enquanto as formações de Jacquin e Troisgros foram em hotelaria, Atala estudou gastronomia. Portanto, mesmo dentro do grupo com formação europeia, não há um único percurso educacional.
Da arquitetura e da engenharia para a cozinha
Algumas das trajetórias mais distintas são justamente as de pessoas cuja passagem pelo ensino superior aconteceu em áreas sem relação direta com gastronomia.
Helena Rizzo cursou Arquitetura na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em 1997, mas não concluiu o curso. Posteriormente, construiu sua carreira na gastronomia e se tornou chef e proprietária do Maní, em São Paulo. Em 2014, foi escolhida World's Best Female Chef pela revista Restaurant e, desde 2021, integra o MasterChef Brasil.
Otto Vitelleschi, conhecido nas redes sociais como Cheff Otto, também iniciou uma graduação em outro campo. Em 2021, cursou Administração na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mas não concluiu a formação. Sua trajetória na culinária começou antes: aos 16 anos, já vendia molhos caseiros, e posteriormente ganhou projeção nas redes sociais.
Valentina Calvão combina uma formação ainda mais distante da área culinária com sua atuação como chef e criadora de conteúdo. Em 2019, concluiu Ensino Técnico em Administração de Empresas pelo Sebrae e, em 2025, o bacharelado em Engenharia de Produção na PUC-MG. Paralelamente, desenvolveu sua presença digital ligada à culinária e passou a oferecer cursos voltados ao público doméstico.
Os casos não estabelecem uma relação entre essas formações e o sucesso posterior na cozinha. Eles mostram, porém, que uma trajetória educacional iniciada em outra área não impediu a construção de uma carreira ligada à gastronomia.
Há também quem não tenha passado pelo ensino superior
Paola Carosella e Rodrigo Hilbert aparecem no levantamento com ensino médio completo e sem formação superior.
Carosella construiu sua carreira profissional na gastronomia e posteriormente se tornou uma das figuras mais conhecidas do setor no país. Nascida em Buenos Aires, foi jurada do MasterChef Brasil entre 2014 e 2020 e esteve à frente de restaurantes como Arturito e La Guapa.
Hilbert também não possui formação acadêmica em gastronomia. Ator, modelo e apresentador, tornou-se conhecido no universo culinário especialmente pelo programa "Tempero de Família", exibido pelo GNT desde 2013.
Os dois casos ajudam a separar conceitos que muitas vezes aparecem juntos: formação acadêmica e formação profissional não são necessariamente equivalentes. A ausência de um diploma universitário em gastronomia não significa ausência de aprendizado ou experiência culinária.
Ana Maria Braga seguiu um caminho acadêmico completamente diferente
Entre todos os nomes reunidos, Ana Maria Braga apresenta uma das trajetórias acadêmicas mais distantes da gastronomia.
Em 1973, concluiu bacharelado em Ciências Físicas e Biológicas pela UNESP. Três anos depois, em 1976, fez especialização em Zoologia na mesma universidade. Em 1983, também se graduou em Jornalismo, embora a instituição não esteja especificada nas fontes públicas consideradas pelo levantamento.
Ana Maria não é chef de cozinha de formação, mas sua inclusão no recorte se deve ao papel que ocupa na popularização da culinária na televisão brasileira. À frente do "Mais Você" desde 1999, tornou-se uma das principais referências do gênero no país.
Sua presença também amplia o próprio significado do levantamento: além de cozinheiros profissionais, a cultura gastronômica brasileira foi construída e popularizada por comunicadores, apresentadores e criadores de conteúdo.
O que cada um estudou
As formações reunidas pelo The College são:
Erick Jacquin — (1982) Formação técnica em hotelaria pela École Hôtelière de Dun-sur-Auron, na França.
Helena Rizzo — (1997) Cursou Arquitetura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mas não concluiu.
Henrique Fogaça — (2004) Graduação em Chef Executivo pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).
Paola Carosella — (1992) Ensino médio completo; não possui ensino superior.
Alex Atala — (1990) Formação técnica em gastronomia pela École Hôtelière de Namur, na Bélgica.
Ana Maria Braga — (1973) Bacharelado em Ciências Físicas e Biológicas pela UNESP; (1976) especialização em Zoologia pela UNESP; (1983) graduação em Jornalismo em instituição não especificada nas fontes públicas.
Rodrigo Hilbert — (1997) Ensino médio completo; não possui ensino superior.
Otto Vitelleschi — (2021) Cursou Administração pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mas não concluiu.
Claude Troisgros — (1978) Formação técnica em hotelaria pela École Hôtelière de Thonon-les-Bains, na França.
Rita Lobo — (1995) Formação profissional em Culinary Arts (Gastronomia) pelo Institute of Culinary Education (ICE).
Rodrigo Oliveira — (2004) Bacharelado em Gastronomia pela Universidade Anhembi Morumbi.
Valentina Calvão — (2019) Ensino Técnico em Administração de Empresas pelo Sebrae; (2025) bacharelado em Engenharia de Produção na PUC-MG.
Da escola técnica à experiência prática
O principal ponto em comum entre essas trajetórias talvez seja justamente a diversidade. Dentro de uma mesma amostra aparecem formação técnica, curso profissional, bacharelado em gastronomia, graduação em outras áreas, cursos superiores não concluídos e profissionais que não chegaram ao ensino superior.
Também existe uma diferença geracional. Entre nomes como Claude Troisgros, Erick Jacquin e Alex Atala, aparecem formações técnicas ou profissionais realizadas na Europa. Já entre profissionais formados no Brasil, surgem cursos superiores ligados diretamente à gastronomia, como nos casos de Fogaça e Rodrigo Oliveira.
Ao mesmo tempo, as trajetórias de Paola Carosella, Rodrigo Hilbert, Helena Rizzo e outros nomes do levantamento mostram os limites de olhar apenas para diplomas ao analisar uma profissão em que aprendizado prático, experiência em cozinhas e desenvolvimento técnico também podem ocupar espaço relevante.
O recorte, portanto, não permite concluir qual formação produz melhores chefs — nem que uma determinada faculdade ou modalidade de ensino seja necessária para alcançar reconhecimento. O que os dados permitem observar é que algumas das figuras mais conhecidas da gastronomia e da culinária no Brasil chegaram ao mesmo universo profissional por caminhos educacionais bastante diferentes.
Metodologia
A análise do The College reúne as formações apresentadas no carrossel de 12 profissionais ligados à gastronomia e à cultura culinária no Brasil. Foram consideradas formações acadêmicas, técnicas e profissionais identificadas para cada nome, incluindo cursos não concluídos quando indicados no material.
O levantamento não constitui um ranking de qualidade acadêmica ou profissional e não pretende estabelecer relação causal entre determinada formação e sucesso na gastronomia. Ana Maria Braga e Rodrigo Hilbert, embora não sejam chefs de formação, integram o recorte por sua atuação e projeção na comunicação e na cultura culinária brasileira.
