Em 15 de novembro de 1889, a Proclamação da República encerrou oficialmente o Império do Brasil e o reinado de Dom Pedro II. A mudança de regime, porém, não significou o desaparecimento da família imperial. Seus descendentes continuaram a organizar uma linha dinástica e a preservar títulos e tradições ligados à antiga monarquia, ainda que sem qualquer função de Estado na República brasileira.
É a partir dessa continuidade familiar que surge uma pergunta de história contrafactual: se o Brasil tivesse permanecido uma monarquia, quem teria ocupado o trono depois de Dom Pedro II?
O percurso reunido pelo The College parte dos dois imperadores que efetivamente governaram o país e acompanha a sucessão da Casa Imperial ao longo das gerações seguintes. O recorte também revela outra transformação: enquanto os primeiros integrantes da dinastia receberam uma educação privada, planejada especificamente para a preparação de um monarca, as gerações posteriores passaram por universidades no exterior e, mais tarde, por instituições brasileiras.
Isso não significa que todos os nomes apresentados tenham sido imperadores. Depois de 1889, os integrantes da família viveram sob a República e os títulos mencionados correspondem à tradição dinástica da Casa Imperial. A sequência funciona, portanto, como um exercício sobre quem estaria na linha do trono caso o regime monárquico tivesse continuado.
Dos palácios às universidades
As três primeiras gerações do levantamento têm uma característica em comum: nenhuma delas passou por uma graduação universitária nos moldes atuais.
Dom Pedro I, nascido em 1798 e imperador entre 1822 e 1831, recebeu uma educação principesca, com estudos de letras, economia política e retórica. Era uma formação planejada para alguém criado dentro de uma corte e preparado para exercer funções de governo.
O padrão se repetiu com Dom Pedro II. Nascido em 1825 e levado ao centro da vida política brasileira ainda criança, o segundo imperador recebeu uma formação descrita como enciclopédica. Também não cursou uma universidade, mas teve contato com diversos campos do conhecimento e falava oito idiomas.
Dona Isabel, nascida em 1846 e filha de Dom Pedro II, também teve uma educação principesca. Sua formação incluiu ciências naturais, astronomia e direito. Como herdeira do trono, ela foi preparada para responsabilidades de Estado em um ambiente no qual a educação das elites dinásticas ainda ocorria principalmente por meio de professores particulares e preceptores.
A mudança de padrão aparece apenas na geração seguinte.
A Sorbonne marca a entrada da família imperial no ensino superior
Dom Pedro Henrique, nascido em 1909 e apontado no levantamento como chefe da Casa Imperial entre 1921 e 1981, foi o primeiro nome da sequência a aparecer com uma graduação universitária. Ele estudou Ciências Políticas e Sociais na Sorbonne, em Paris, formando-se em 1932.
A diferença em relação às gerações anteriores também reflete uma mudança nas circunstâncias da própria família. A monarquia já havia terminado havia mais de quatro décadas, e a formação de seus descendentes passou a ocorrer fora da estrutura educacional de uma corte.
A presença da França não ficou restrita a Dom Pedro Henrique. Seu filho Dom Luiz, nascido em 1938 e apresentado como chefe da Casa Imperial de 1981 a 2022, também cursou Ciências Políticas e Sociais na Sorbonne. O levantamento acrescenta ainda estudos de Química e Física em Munique.
A repetição da formação em Ciências Políticas e Sociais entre pai e filho chama atenção, mas não permite estabelecer uma relação causal entre o curso escolhido e o papel dinástico que posteriormente exerceram. O dado mostra, sobretudo, uma concentração dessa área de estudos em duas gerações consecutivas.
Largo de São Francisco e PUC-Rio aproximam a formação do padrão universitário brasileiro
Nas gerações mais recentes, o percurso educacional muda novamente. As instituições estrangeiras dão lugar a universidades brasileiras e a cursos com perfil profissional mais claramente definido.
Dom Bertrand, nascido em 1941 e apresentado no levantamento como chefe da Casa Imperial a partir de 2022, formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP, em 1964.
A escolha coloca um integrante da família imperial em uma instituição profundamente associada à história política brasileira. Ainda assim, dentro desta análise, o ponto central é a mudança do modelo educacional: da instrução privada de príncipes e princesas para uma graduação formal em uma universidade brasileira.
Dom Rafael, nascido em 1986 e identificado no material como príncipe imperial desde 2024, estudou Engenharia de Produção na PUC-Rio. É a formação mais distante, em termos de área acadêmica, daquela observada nas primeiras gerações da família.
Quando os sete nomes são colocados em sequência, a transformação é nítida. As primeiras três trajetórias são marcadas pela educação principesca; as duas seguintes, por Ciências Políticas e Sociais na Sorbonne; e as gerações mais recentes, por Direito e Engenharia de Produção em universidades brasileiras.
Quem teria ocupado o trono brasileiro?
Dentro da linha utilizada pelo levantamento do The College, a sequência histórica e dinástica apresentada é a seguinte:
Dom Pedro I (1798–1834) — Imperador do Brasil entre 1822 e 1831. Formação: educação principesca, com letras, economia política e retórica.
Dom Pedro II (1825–1891) — Imperador do Brasil entre 1831 e 1889. Formação: educação principesca e enciclopédica; falava oito idiomas.
Dona Isabel (1846–1921) — apresentada como chefe da Casa Imperial entre 1891 e 1921. Formação: educação principesca, com estudos de ciências naturais, astronomia e direito.
Dom Pedro Henrique (1909–1981) — chefe da Casa Imperial entre 1921 e 1981. Formação: Ciências Políticas e Sociais pela Sorbonne, em 1932.
Dom Luiz (1938–2022) — chefe da Casa Imperial entre 1981 e 2022. Formação: Ciências Políticas e Sociais pela Sorbonne e estudos de Química e Física em Munique.
Dom Bertrand (1941–) — apresentado como chefe da Casa Imperial desde 2022. Formação: Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP, em 1964.
Dom Rafael (1986–) — identificado no levantamento como príncipe imperial desde 2024. Formação: Engenharia de Produção pela PUC-Rio.
A lista não significa que os nomes posteriores a Dom Pedro II tenham efetivamente reinado. Dona Isabel chegou a exercer a regência do Império em diferentes períodos enquanto seu pai estava ausente, mas a República foi proclamada antes que ela pudesse sucedê-lo como monarca.
Da mesma forma, os chefes posteriores da Casa Imperial exerceram papéis dentro da tradição dinástica da família, e não cargos reconhecidos pelo Estado brasileiro.
A formação acadêmica acompanha a transformação do papel da família
Talvez o aspecto mais interessante do levantamento esteja menos na hipótese sobre a sucessão e mais na transformação da educação dentro de uma mesma linhagem.
Dom Pedro I, Dom Pedro II e Dona Isabel foram educados para uma realidade em que a possibilidade de governar fazia parte de sua própria condição de nascimento. A formação era ampla, individualizada e orientada às responsabilidades esperadas de um integrante da família reinante.
Depois da República, esse modelo deixa de existir. Dom Pedro Henrique e Dom Luiz frequentam uma universidade internacional, enquanto Dom Bertrand e Dom Rafael seguem formações superiores no Brasil. Em pouco mais de dois séculos, a trajetória vai de preceptores dentro do palácio a cursos de Direito e Engenharia em instituições semelhantes às frequentadas por outros estudantes brasileiros.
É também um lembrete importante sobre os limites do exercício histórico. Não é possível afirmar que a sucessão teria ocorrido exatamente dessa forma caso a monarquia tivesse sobrevivido desde 1889. Mudanças políticas, casamentos, renúncias, regras sucessórias e acontecimentos pessoais poderiam ter alterado completamente a trajetória da dinastia. O que o levantamento permite observar é a continuidade da linha familiar reconhecida dentro do recorte adotado e como a formação de seus integrantes mudou com o tempo.
Metodologia
O levantamento do The College reúne informações sobre a família imperial brasileira e sua formação educacional a partir de dados do Museu Imperial, Pró-Monarquia, SciELO, Redalyc, CNN Brasil e Wikipédia.
Para os integrantes anteriores ao fim do Império, foram consideradas as características de sua educação principesca e os principais campos de estudo registrados nas fontes consultadas. Para as gerações posteriores, foram apresentadas as formações universitárias indicadas no material.
A sequência posterior a 1889 deve ser interpretada como uma linha dinástica hipotética aplicada a um cenário em que o Brasil tivesse continuado monárquico, e não como uma lista de pessoas que exerceram o cargo de imperador. A história contrafactual também não permite assegurar que, caso a República não tivesse sido proclamada, todos esses nomes teriam necessariamente ocupado o trono nas mesmas condições ou períodos.
