O Dia Mundial de Combate ao Bullying, celebrado em 20 de outubro, começou em 2026 com um relato que mobilizou as redes. Em vídeo publicado à meia-noite, o youtuber Felca contou ter sofrido bullying na escola por oito anos, desde os 12.
Segundo ele, ao terminar o colégio, disse aos pais: "Eu não vou conseguir enfrentar uma faculdade, eu não consigo enfrentar mais uma sala de aula".
A história dele não é exceção. Os dados mais recentes do IBGE mostram que o bullying recorrente atinge mais de um em cada quatro adolescentes brasileiros e que o problema cresceu nos últimos cinco anos. O levantamento do The College reúne esses números e os de outras quatro fontes para mostrar o tamanho do fenômeno e o que ele faz com a vida escolar.
Mais de 1 em cada 4 estudantes sofreu bullying no último mês
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do IBGE, 27,2% dos estudantes de 13 a 17 anos sofreram bullying duas vezes ou mais nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Em números absolutos, isso equivale a cerca de 3,4 milhões de adolescentes. A conta é uma estimativa do The College, que aplica o percentual ao universo de 12,36 milhões de escolares representados na pesquisa.
O recorte importa: os 27,2% falam de bullying recorrente no último mês, e não de quem já sofreu bullying alguma vez na vida. É uma medida mais restrita, o que torna o número mais significativo.
O índice subiu 4,2 pontos desde 2019
Na edição de 2019 da PeNSE, o bullying recorrente atingia 23,0% dos estudantes. A alta até 2024 é de 4,2 pontos percentuais, um crescimento relativo de cerca de 18% em cinco anos.
A comparação só vale a partir de 2019, porque a pergunta do questionário mudou em relação às edições anteriores.
Meninas sofrem mais, meninos praticam mais
O bullying não se distribui de forma igual. Entre as meninas, 30,1% relataram ter sofrido bullying recorrente; entre os meninos, 24,3%.
Do lado de quem pratica, a relação se inverte: 16,5% dos meninos e 10,9% das meninas disseram ter praticado bullying. No total, 13,7% dos estudantes se identificaram como autores.
Escola particular não é proteção
Um dos achados que mais contrariam o senso comum está na comparação entre redes. Na rede pública, 27,2% dos estudantes sofreram bullying recorrente. Na privada, 27,5%.
A diferença é praticamente nula. Pagar mensalidade não coloca o aluno fora do alcance do problema.
Rosto e cabelo lideram os motivos
Quando perguntadas sobre o motivo das agressões, as vítimas apontaram, em primeiro lugar, a aparência do rosto ou do cabelo. A pergunta permitia mais de uma resposta, por isso a soma passa de 100%.
Rosto ou cabelo: 30,2%
Corpo: 24,7%
Cor ou raça: 10,6%
Roupas e material escolar: 10,1%
Sotaque: 8,9%
Fora do ranking, há um dado que chama atenção: cerca de uma em cada quatro vítimas (26,3%) diz não saber o motivo.
Para quem pratica, gênero e deficiência pesam mais
A PeNSE também perguntou aos autores por que praticaram bullying, e as respostas não coincidem com as das vítimas.
Entre quem praticou, 12,1% citam identidade de gênero ou orientação sexual como motivo; entre as vítimas, 6,4%. Com deficiência, a diferença é parecida: 7,6% entre os autores e 2,6% entre as vítimas.
Das redes sociais à agressão física
O bullying não fica restrito à sala de aula. Segundo a PeNSE 2024, 12,7% dos estudantes foram humilhados ou ameaçados em redes sociais ou aplicativos no último mês. Entre as meninas, o índice chega a 15,2%; entre os meninos, 10,3%.
Aqui, porém, não há alta: em 2019, o percentual era de 13,2%, o que indica estabilidade.
Já a agressão física entre colegas cresceu. De acordo com dados do IBGE divulgados pela Agência Brasil, 16,6% dos estudantes foram agredidos fisicamente por colegas, contra 14% em 2019.
13,7% faltaram à escola por medo
O efeito mais direto sobre a educação aparece na frequência. No último ano, 13,7% dos estudantes faltaram à escola por se sentir inseguros nela, alta de 2,9 pontos em relação a 2019.
Outros 12,5% faltaram por se sentir inseguros no trajeto entre a casa e a escola.
No PISA, o Brasil fica acima da média da OCDE
A comparação internacional vem de outra pesquisa, o PISA 2022, aplicado pela OCDE a alunos de 15 anos. Os números não se comparam diretamente com os da PeNSE, porque a metodologia e a faixa etária são diferentes.
No PISA, 26% dos meninos brasileiros relatam sofrer bullying algumas vezes por mês ou mais, contra 21% na média da OCDE. Entre as meninas, são 22% no Brasil e 20% na OCDE.
A maior distância está na solidão: 27% dos alunos brasileiros dizem se sentir sozinhos na escola, contra 16% na média dos países da organização.
Menos da metade estuda em escola com prevenção
A estrutura das escolas ainda está aquém do problema. Segundo a PeNSE 2024 e a Agência Brasil, 47,7% dos estudantes estão matriculados em escolas com suporte psicológico, 43,2% em escolas com ações de prevenção ao bullying e 34,1% em escolas com profissional de saúde mental no quadro.
No suporte psicológico, a rede privada sai na frente: 58,2% dos alunos têm acesso, contra 45,8% na pública. Ou seja, a escola particular oferece mais estrutura, mas registra o mesmo nível de bullying.
A relação com a saúde mental
Entre os estudantes que se feriram de propósito no último ano, 69,2% sofreram bullying, segundo dados do IBGE divulgados pela Agência Brasil.
O número mostra associação, não relação de causa: a pesquisa não permite afirmar que uma coisa leva à outra. Ainda assim, reforça por que o tema vai além da disciplina escolar.
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Bullying virou crime em 2024
Desde janeiro de 2024, bullying e cyberbullying estão no Código Penal, pela Lei 14.811/2024. O bullying é punido com multa. O cyberbullying, com reclusão de 2 a 4 anos e multa.
Os registros policiais cresceram desde então. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram 3.161 boletins de ocorrência em 2024 e 5.226 em 2025.
Os boletins medem registros na polícia, e não quantos casos acontecem. A alta pode refletir tanto mais casos quanto mais denúncias depois da mudança na lei.
Metodologia
O levantamento foi feito pelo The College a partir de cinco fontes públicas.
Os dados de vitimização, autoria, motivos, redes sociais, faltas e estrutura escolar vêm da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) do IBGE, edições de 2019 e 2024, com estudantes de 13 a 17 anos. O bullying recorrente considera quem sofreu duas vezes ou mais nos últimos 30 dias. Alguns recortes (agressão física, motivos citados pelos autores, saúde mental e parte da estrutura escolar) foram divulgados pela Agência Brasil a partir da mesma pesquisa.
A estimativa de 3,4 milhões de adolescentes é um cálculo do The College, que aplica os 27,2% ao total de 12,36 milhões de escolares representados na PeNSE 2024.
A comparação internacional usa o PISA 2022 (OCDE e Inep), com alunos de 15 anos, e não deve ser comparada diretamente com a PeNSE.
Os boletins de ocorrência vêm do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e as penas, da Lei 14.811/2024. O relato de Felca foi publicado em vídeo no YouTube em 20 de outubro de 2026.
Fonte: IBGE, PeNSE 2019 e 2024; OCDE e Inep, PISA 2022; FBSP, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026; Lei 14.811/2024. Elaboração e análise: The College.
