A carreira de um jogador de futebol de alto nível costuma começar cedo. Treinos, viagens, concentrações e competições ocupam boa parte de uma rotina que, para muitos atletas, coincide justamente com os anos em que outros jovens estão entrando na universidade.
Ainda assim, algumas trajetórias mostram que futebol profissional e formação acadêmica não são necessariamente caminhos excludentes.
No primeiro conteúdo do especial do The College para a Copa do Mundo, foram reunidos 15 nomes ligados ao futebol que tiveram experiências marcantes no ensino superior. A lista passa por campeões mundiais, vencedores da Bola de Ouro, ídolos de alguns dos maiores clubes da Europa e jogadores que, depois de deixarem os gramados, seguiram também por carreiras fora do esporte.
Os percursos são bastante diferentes. Pelé e Sócrates estudaram durante a própria carreira. Giorgio Chiellini concluiu Economia e avançou até o mestrado. Juan Mata se formou em duas áreas. Steve Palmer chegou ao futebol profissional depois de passar por Cambridge e, mais tarde, levou sua formação em Engenharia de Software para uma função executiva dentro da Premier League.
Há também quem tenha voltado à universidade depois de encerrar a carreira, como Tostão, Tite e George Weah.
A universidade entrou na rotina de alguns atletas ainda durante a carreira
Entre os casos mais conhecidos do Brasil está o de Sócrates. Ídolo do Corinthians, da Seleção Brasileira dos anos 1980 e um dos principais nomes da Democracia Corinthiana, ele se formou em Medicina pela USP de Ribeirão Preto durante a carreira como jogador. A formação ajudou a consolidar o apelido pelo qual também ficou conhecido fora de campo: “Doutor”.
Pelé seguiu um caminho ligado ao próprio esporte. Tricampeão mundial em 1958, 1962 e 1970 e maior ídolo da história do Santos, formou-se em Educação Física pela Unimes em 1974, quando ainda estava em atividade.
Na Europa, Andrés Iniesta também concluiu os estudos durante sua trajetória como atleta. O ex-meia do Barcelona, autor do gol que deu à Espanha o título da Copa do Mundo de 2010, formou-se em Ciências da Atividade Física e do Esporte pela Universitat Ramon Llull em 2017.
O italiano Giorgio Chiellini conciliou uma carreira de elite com estudos em uma área distante dos gramados. Capitão histórico da Juventus e da seleção italiana campeã da Eurocopa de 2021, formou-se em Economia pela Universidade de Turim e seguiu até o mestrado, com uma tese relacionada ao próprio clube.
Outro caso é o de Juan Mata. Campeão mundial e europeu pela Espanha e com passagens por Chelsea e Manchester United, o meio-campista concluiu formações em Ciências do Esporte e Jornalismo pela Universidad Camilo José Cela durante a carreira.
Henrikh Mkhitaryan também aparece com uma trajetória acadêmica diversificada. O jogador armênio, que passou por Borussia Dortmund, Manchester United, Arsenal, Roma e Inter, fez duas graduações — Cultura Física e Economia — enquanto seguia no futebol profissional. Segundo o material analisado, ele também fala sete idiomas.
Já Simon Mignolet, goleiro belga com longa passagem pelo Liverpool, formou-se em Ciência Política pela KU Leuven enquanto ainda jogava. O caso chama atenção também pela forma como conduziu os estudos: segundo o levantamento, estudava escondido dos próprios colegas de equipe.
Medicina, negócios e esporte aparecem lado a lado
Não existe uma área acadêmica dominante entre os nomes reunidos. O conjunto é marcado justamente pela diversidade.
Medicina aparece em dois casos brasileiros importantes. Além de Sócrates, Tostão também seguiu a área. Atacante da seleção tricampeã mundial em 1970, ele encerrou precocemente a carreira aos 26 anos por uma lesão na retina. Depois de se aposentar, formou-se em Medicina pela UFMG e passou a atuar como médico e professor.
As áreas relacionadas a esporte e atividade física também aparecem mais de uma vez, mas em momentos distintos das carreiras. Além de Pelé e Iniesta, Tite se formou em Educação Física pela PUC-Campinas depois de se aposentar como jogador. Volante nos anos 1980, ele construiu posteriormente a parte mais conhecida de sua trajetória no futebol como treinador.
Já o grupo ligado a Economia, Administração e negócios inclui Chiellini, Mkhitaryan, George Weah e Vincent Kompany.
Weah, único africano a vencer a Bola de Ouro, em 1995, estudou Administração e posteriormente fez mestrado em Administração Pública depois de encerrar a carreira. A formação acadêmica passou a integrar uma trajetória profissional que tomou outro rumo: o ex-jogador viria a se tornar presidente da Libéria.
Kompany seguiu por uma formação executiva. Capitão e ídolo do Manchester City durante o período de ascensão do clube, fez um MBA na Alliance Manchester Business School enquanto ainda jogava e, posteriormente, recebeu um doutorado honoris causa da universidade.
Petr Čech também concluiu um MBA, com distinção, depois de se aposentar. O ex-goleiro de Chelsea e Arsenal ainda teve uma experiência esportiva incomum após deixar o futebol profissional: passou a atuar como goleiro de hóquei no gelo.
César Azpilicueta, por sua vez, iniciou um MBA durante a carreira, na mesma turma de Čech. No material original, porém, a conclusão dessa formação aparece como “a confirmar”. Por isso, o caso deve ser interpretado com essa ressalva.
De Cambridge à Premier League: quando a formação antecede o futebol
Steve Palmer representa a principal inversão do padrão encontrado na lista.
Zagueiro que atuou por Ipswich e Watford entre os anos 1990 e 2000, ele se formou em Engenharia de Software por Cambridge antes de se tornar jogador profissional. Em vez de ingressar na universidade durante ou depois do futebol, Palmer chegou aos gramados de alto nível já com uma formação acadêmica concluída.
A relação entre educação e carreira também reapareceria mais tarde. Depois da passagem pelo futebol profissional, Palmer tornou-se Head of Data da Premier League, conectando uma formação originalmente desenvolvida fora do esporte a uma posição dentro da indústria do futebol.
O caso ajuda a ilustrar uma característica importante da amostra: graduação e pós-graduação não aparecem apenas como alternativas para o período posterior aos gramados. Dependendo da trajetória, elas podem acompanhar a carreira esportiva, antecedê-la ou fazer parte de uma transição profissional.
Os 15 nomes reunidos pelo The College
A seleção apresentada no especial reúne:
Pelé — Educação Física pela Unimes, em 1974, durante a carreira.
Sócrates — Medicina pela USP de Ribeirão Preto, durante a carreira.
Tostão — Medicina pela UFMG, após se aposentar; posteriormente atuou como médico e professor.
Tite — Educação Física pela PUC-Campinas, depois da aposentadoria como jogador.
Andrés Iniesta — Ciências da Atividade Física e do Esporte pela Universitat Ramon Llull, em 2017, durante a carreira.
Petr Čech — MBA com distinção após a aposentadoria.
Giorgio Chiellini — Economia pela Universidade de Turim, além de mestrado e tese relacionada ao próprio clube.
Vincent Kompany — MBA na Alliance Manchester Business School durante a carreira e, posteriormente, doutorado honoris causa.
Juan Mata — Ciências do Esporte e Jornalismo pela Universidad Camilo José Cela, durante a carreira.
César Azpilicueta — MBA iniciado durante a carreira; o material indica que a conclusão ainda precisa ser confirmada.
George Weah — Administração e mestrado em Administração Pública depois da aposentadoria.
Henrikh Mkhitaryan — graduações em Cultura Física e Economia durante a carreira.
Simon Mignolet — Ciência Política pela KU Leuven durante a carreira.
Steve Palmer — Engenharia de Software por Cambridge antes de se tornar profissional.
Romário — menção honrosa: iniciou Educação Física e Moda, mas não concluiu nenhuma das formações.
Formação acadêmica aparece em diferentes momentos da trajetória
O aspecto mais interessante do recorte talvez não esteja em uma universidade ou curso específico, mas no momento em que cada jogador encontrou espaço para estudar.
Há atletas que cursaram uma graduação enquanto competiam no mais alto nível do futebol. Outros retomaram a universidade depois da aposentadoria. Steve Palmer concluiu a formação antes mesmo de virar profissional. E alguns utilizaram os estudos como parte de uma trajetória posterior que avançou para medicina, gestão, política, tecnologia ou funções executivas ligadas ao próprio esporte.
Isso não significa que o ensino superior seja requisito para uma carreira bem-sucedida no futebol, nem que os casos reunidos possam ser generalizados para atletas profissionais. A própria rotina do esporte de alto rendimento cria obstáculos significativos para conciliar treinamento, viagens e calendário de competições com uma formação universitária tradicional.
Os exemplos mostram, porém, que a carreira de um atleta pode comportar percursos educacionais muito mais variados do que apenas a formação esportiva. Para alguns desses jogadores, a universidade esteve presente ainda no auge da carreira; para outros, tornou-se parte da construção de uma segunda profissão.
Metodologia
O especial do The College reúne 15 nomes ligados ao futebol, incluindo jogadores que concluíram graduações ou pós-graduações antes, durante ou depois da carreira profissional. Romário aparece como menção honrosa, já que iniciou cursos de Educação Física e Moda, mas não concluiu nenhuma das formações.
No caso de César Azpilicueta, o material registra a realização de um MBA durante a carreira, mas indica que a conclusão ainda precisa ser confirmada. O levantamento tem caráter editorial e não pretende representar todos os jogadores de futebol com formação universitária, mas reunir casos relevantes que ajudam a explorar a relação entre futebol, educação e carreira.
