Escolher uma graduação costuma vir acompanhado de uma expectativa relativamente direta: estudar determinada área para, depois do diploma, construir uma carreira naquele mesmo campo. Na prática, porém, essa relação nem sempre se mantém.
Um levantamento do Instituto Semesp, divulgado pela CNN Brasil, analisou mais de 5,6 mil profissionais formados em 178 instituições brasileiras e identificou as graduações com as maiores proporções de pessoas trabalhando fora da área em que se formaram.
Entre os 12 cursos com maior índice de desvio, a taxa varia de 31,2% a 55,2%. Isso significa que, em algumas das graduações analisadas, mais da metade dos profissionais pesquisados seguiu uma trajetória profissional diferente daquela diretamente associada ao diploma.
Engenharia Química e Relações Internacionais são os únicos cursos acima de 50%
Engenharia Química aparece na primeira posição do levantamento, com uma taxa de desvio de 55,2%. Dentro da amostra pesquisada, portanto, mais da metade dos formados no curso trabalha atualmente em uma área diferente daquela de formação.
Logo depois está Relações Internacionais, com 52,9%. Os dois cursos se destacam dos demais por serem os únicos da lista em que a proporção de profissionais fora da área supera 50%.
A partir da terceira posição, o percentual apresenta uma queda mais acentuada. Engenharia de Produção registra 42,4%, seguida por Jornalismo, com 40,4%, e Biologia, com 40%.
Ainda que os índices fiquem abaixo da metade, os números indicam que uma parcela expressiva dos profissionais dessas graduações construiu a carreira em outros campos.
Esse desvio não deve ser interpretado necessariamente como abandono da formação ou insucesso profissional. Algumas graduações desenvolvem competências aplicáveis a diferentes setores, enquanto determinadas carreiras possuem fronteiras menos delimitadas no mercado de trabalho.
O levantamento mede onde os profissionais estão atuando, e não as razões individuais que levaram cada um a seguir determinado caminho.
Engenharias aparecem mais de uma vez entre os maiores índices
Outro padrão visível no ranking é a presença de diferentes engenharias. Além de Engenharia Química na liderança, Engenharia de Produção ocupa a terceira colocação, com 42,4%, enquanto Engenharia Ambiental aparece em décimo lugar, com 32%.
A presença das três formações mostra que cursos pertencentes a um mesmo grande campo de conhecimento podem apresentar diferentes níveis de aderência entre graduação e atuação profissional.
Também aparecem no ranking cursos de áreas bastante distintas. Jornalismo registra taxa de desvio de 40,4%, enquanto História chega a 36,8% e Matemática, a 36,4%.
Serviço Social aparece com 33,2%, seguido por Engenharia Ambiental, com 32%, Biomedicina, com 31,3%, e Turismo, que fecha a lista com 31,2%.
A proximidade dos percentuais nas últimas posições também chama atenção. A diferença entre o nono colocado, Serviço Social, e o 12º, Turismo, é de apenas dois pontos percentuais.
Saúde apresenta um cenário diferente em outras graduações
Segundo os dados apresentados junto ao levantamento, algumas formações da área da saúde demonstram maior aderência entre diploma e profissão.
Cursos como Medicina, Farmácia e Odontologia são mencionados como exemplos de graduações em que os profissionais tendem a permanecer mais ligados à própria área de formação.
O contraste ajuda a mostrar que a transição entre universidade e mercado de trabalho varia significativamente conforme a carreira.
Em algumas profissões, o próprio exercício profissional está associado a uma formação específica, além de regulamentações e credenciais determinadas. Em outras, as competências adquiridas durante a graduação podem ser utilizadas em diferentes setores e funções, tornando a trajetória ocupacional menos linear.
Por isso, uma taxa maior de desvio não significa automaticamente menor empregabilidade ou menor valor daquela formação. O indicador mostra apenas a proporção de pessoas da amostra que trabalham fora da área em que se graduaram.
O que a taxa de desvio pode dizer para quem está escolhendo um curso
Para um estudante em fase de decisão, os dados acrescentam uma variável que nem sempre aparece entre os critérios tradicionais de escolha de uma graduação.
Além de fatores como afinidade pessoal, mensalidade, reputação da instituição, currículo e perspectivas salariais, a aderência profissional pode ajudar a entender o quanto determinada graduação costuma estar vinculada a uma trajetória específica.
Um curso com baixa taxa de desvio tende, dentro da população analisada, a apresentar maior correspondência entre formação e atuação profissional. Uma taxa elevada, por outro lado, indica que uma parcela maior dos formados acabou trabalhando em outros campos.
Isso não permite concluir que um caminho seja melhor do que o outro. Há estudantes que procuram uma formação associada a uma profissão claramente definida, enquanto outros valorizam justamente a possibilidade de transitar entre diferentes setores.
Os números também não mostram se a mudança de área foi voluntária, provocada por melhores oportunidades, por uma alteração de interesse ao longo da carreira ou pela dificuldade de encontrar trabalho relacionado à formação original.
Essa distinção é importante porque dois profissionais classificados igualmente como atuando “fora da área” podem ter trajetórias completamente diferentes.
Ranking completo: as 12 graduações com mais profissionais atuando fora da área
Considerando o percentual de formados que trabalham fora de sua área de formação, o levantamento apresenta a seguinte classificação:
Engenharia Química — 55,2%
Relações Internacionais — 52,9%
Engenharia de Produção — 42,4%
Jornalismo — 40,4%
Biologia — 40%
Química — 38,9%
História — 36,8%
Matemática — 36,4%
Serviço Social — 33,2%
Engenharia Ambiental — 32%
Biomedicina — 31,3%
Turismo — 31,2%
A distância entre o primeiro e o último colocado é de 24 pontos percentuais. O ranking também reúne cursos de exatas, humanas, ciências sociais aplicadas, saúde e engenharias, sem concentração em uma única área do conhecimento.
Uma fotografia majoritariamente jovem e de instituições privadas
A composição da amostra também precisa ser considerada na interpretação dos resultados.
Entre os profissionais pesquisados, 68,3% têm até 34 anos e 96,9% se formaram em instituições privadas. Dessa forma, os resultados refletem predominantemente a experiência recente de egressos do ensino superior privado brasileiro.
Essa característica impede que o ranking seja interpretado como uma medida universal da trajetória de todos os graduados do país. Perfis de profissionais mais experientes, formados em outros períodos ou provenientes majoritariamente de universidades públicas poderiam apresentar resultados diferentes.
Ainda assim, a pesquisa oferece uma referência sobre como formação e ocupação têm se relacionado dentro de uma amostra relevante de jovens profissionais.
Para quem está escolhendo uma graduação, a principal utilidade desses números está menos em apontar quais cursos devem ser escolhidos ou evitados e mais em mostrar que o diploma não possui o mesmo grau de previsibilidade em todas as carreiras.
Em alguns casos, a formação permanece fortemente conectada à profissão exercida. Em outros, o caminho depois da universidade se torna mais diverso. Conhecer essa diferença antes da matrícula pode ajudar o estudante a alinhar suas expectativas ao tipo de trajetória profissional que determinada graduação pode oferecer.
Metodologia
Os dados são de um levantamento do Instituto Semesp, divulgado pela CNN Brasil, realizado entre agosto e setembro.
A pesquisa analisou mais de 5,6 mil profissionais formados em 178 instituições brasileiras. O indicador utilizado é a taxa média de desvio, correspondente ao percentual de graduados que atuam profissionalmente fora da área em que se formaram.
Entre os participantes, 68,3% tinham até 34 anos e 96,9% eram formados por instituições privadas. Por essa composição, os resultados devem ser interpretados principalmente como um retrato da amostra pesquisada, e não como uma representação integral de todos os graduados brasileiros.
O dado não determina, por si só, se um curso oferece boas ou más perspectivas de carreira. Ele ajuda, no entanto, a dimensionar o grau de aderência entre formação acadêmica e ocupação profissional — uma informação relevante para estudantes que tentam entender não apenas o conteúdo de uma graduação, mas também os caminhos profissionais que podem surgir depois dela.
Fonte: Instituto Semesp / CNN Brasil.
Publicado em [07-04-2026]
