As histórias de grandes fortunas costumam ser associadas a heranças, capital familiar e estruturas empresariais já estabelecidas. Esse ponto de partida, porém, está longe de explicar todos os casos de brasileiros que construíram patrimônios bilionários.
Um levantamento realizado pelo The College reuniu a trajetória e a formação acadêmica de 13 empresários que nasceram em famílias pobres ou enfrentaram dificuldades financeiras significativas na infância e na juventude. O grupo inclui nomes ligados a alguns dos maiores negócios brasileiros em setores como varejo, televisão, aviação, saúde, cosméticos, alimentos, educação, construção civil e locação de veículos.
Os percursos educacionais são bastante diferentes. Nove dos 13 nomes analisados, ou aproximadamente 70%, chegaram ao ensino superior, com formações que vão de Administração e Computação a Medicina, Direito, Economia e Teologia. Outros quatro não possuem graduação — três deles sequer concluíram o ensino primário.
O dado não estabelece uma relação causal entre faculdade e enriquecimento. Também não transforma histórias excepcionais de mobilidade social em uma regra aplicável à população. O que o recorte permite observar é como trajetórias empresariais muito fora da curva foram acompanhadas por experiências educacionais bastante distintas.
A maioria chegou à universidade, mas não existe um curso dominante
Diferentemente de levantamentos sobre executivos de grandes empresas ou profissionais do mercado financeiro, nos quais determinadas graduações costumam aparecer com grande frequência, a formação dos empresários deste recorte é dispersa.
Luciano Hang estudou Ciência da Computação. Abilio Diniz e Salim Mattar fizeram Administração. Antonio Luiz Seabra cursou Economia. Edson Bueno e Lírio Parisotto se formaram em Medicina. Elie Horn estudou Direito. Edir Macedo seguiu a área de Teologia, enquanto Carlos Wizard Martins combinou Ciência da Computação e Estatística.
Entre os nove empresários com ensino superior, portanto, não há uma graduação capaz de explicar sozinha o perfil da amostra.
Também aparecem diferentes níveis de aprofundamento acadêmico. Abilio Diniz, por exemplo, concluiu Administração de Empresas na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas, com bolsa, e posteriormente realizou pós-graduações em Marketing na Ohio University e em Economia na Columbia University, ambas nos Estados Unidos.
Edir Macedo, por sua vez, concluiu bacharelado em Teologia pela Faculdade Evangélica de Teologia e mestrado em Ciências Teológicas pela Federação de Entidades Religiosas Evangélicas de España, em Madri.
Quatro empresários construíram fortunas sem chegar à universidade
Se a maioria frequentou o ensino superior, algumas das trajetórias mais extremas do levantamento aparecem justamente entre aqueles que tiveram acesso educacional mais limitado.
Silvio Santos concluiu um curso técnico de Contabilidade na Escola Técnica de Comércio Amaro Cavalcanti, mas não cursou o ensino superior. Ainda adolescente, começou a trabalhar como camelô e posteriormente construiu uma carreira no rádio e na televisão, até criar o Grupo Silvio Santos e o SBT.
Ilson Mateus, fundador do Grupo Mateus, teve o ensino primário incompleto. Após perder o pai aos seis anos, trabalhou ainda criança em diferentes atividades, incluindo venda de balas, engraxate e trabalho em fábrica. Em 1986, abriu uma pequena mercearia em Balsas, no Maranhão. O negócio daria origem ao Grupo Mateus, que, segundo os dados apresentados no levantamento, alcançou R$ 43,5 bilhões de faturamento em 2025.
Nenê Constantino também não concluiu o ensino primário. Na infância, ajudava o tio na lavoura e vendia verduras. Mais tarde entrou no transporte rodoviário, construiu o Grupo Áurea/Comporte e, em 2001, participou com os filhos da fundação da Gol Linhas Aéreas.
José “Mineiro” Batista, fundador do negócio que se tornaria a JBS, igualmente deixou a escola antes de completar o ensino primário. Começou no comércio de gado ainda adolescente e, em 1953, abriu com um irmão a Casa de Carnes Mineira, em Anápolis. O pequeno açougue foi o embrião da companhia que décadas depois se transformaria em uma das maiores empresas de alimentos do mundo.
Esses casos são importantes dentro da amostra, mas precisam ser interpretados com cautela. Empresários bilionários que partiram de condições tão adversas representam trajetórias altamente excepcionais, e não evidência de que baixa escolaridade seja irrelevante para mobilidade social ou desenvolvimento profissional.
Educação aparece de formas diferentes ao longo das trajetórias
Mesmo entre os empresários que chegaram à universidade, o ensino superior não necessariamente antecedeu o primeiro contato com o trabalho.
Luciano Hang começou a trabalhar aos 17 anos na fábrica de tecidos em que seus pais eram operários. Formou-se em Ciência da Computação pela Universidade Regional de Blumenau (FURB) em 1983 e, três anos depois, fundou a Havan com Vanderlei Lima.
Salim Mattar começou a trabalhar como office-boy em uma empresa de engenharia e, em 1973, fundou a Localiza com seis Fuscas usados ao lado de Antonio Cláudio Brandão Resende. Concluiu Administração de Empresas pela FUMEC em 1976.
Antonio Luiz Seabra começou a trabalhar aos 15 anos como calculista de custos em uma gráfica. Depois de passar pela Remington Rand e por um laboratório de cosméticos, fundou em 1969 a empresa que viria a se tornar a Natura. O levantamento registra um bacharelado em Economia concluído em São Paulo em 1965, embora a instituição não tenha sido confirmada em fontes públicas.
Há ainda casos em que a formação esteve diretamente ligada ao setor posteriormente explorado pelo empresário. Edson Bueno cursou Medicina na Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, atual UFRJ, e iniciou sua trajetória empresarial na área da saúde antes de fundar a Amil em 1978.
Lírio Parisotto também se formou em Medicina, pela Universidade de Caxias do Sul, em 1979. Embora nunca tenha exercido a profissão, construiu posteriormente uma trajetória empresarial ligada à indústria de eletroeletrônicos e petroquímica, com a Videolar-Innova.
A lista completa dos 13 empresários e suas formações
Silvio Santos (SBT) — Curso Técnico de Contabilidade na Escola Técnica de Comércio Amaro Cavalcanti, em 1950. Não possui ensino superior.
Luciano Hang (Havan) — Bacharelado em Ciência da Computação pela Universidade Regional de Blumenau (FURB), em 1983.
Abilio Diniz (Pão de Açúcar) — Bacharelado em Administração de Empresas pela Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas, em 1959, com bolsa; pós-graduação em Marketing pela Ohio University e pós-graduação em Economia pela Columbia University, ambas em 1965.
Edir Macedo (TV Record) — Bacharelado em Teologia pela Faculdade Evangélica de Teologia, em 1975; mestrado em Ciências Teológicas pela Federação de Entidades Religiosas Evangélicas de España, em Madri, em 1985.
Carlos Wizard Martins (Wizard) — Bacharelado em Ciência da Computação e Estatística pela Brigham Young University, em Utah, nos Estados Unidos, em 1976.
Ilson Mateus (Grupo Mateus) — Ensino primário incompleto. Não possui ensino superior.
Nenê Constantino (GOL) — Ensino primário incompleto. Não possui ensino superior.
Antonio Luiz Seabra (Natura) — Bacharelado em Economia em São Paulo, em 1965. A instituição não foi confirmada em fontes públicas.
Edson Bueno (Amil) — Bacharelado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, atual UFRJ, em 1972.
José “Mineiro” Batista (JBS) — Ensino primário incompleto. Não possui ensino superior.
Salim Mattar (Localiza) — Bacharelado em Administração de Empresas pela FUMEC, em 1976.
Elie Horn (Cyrela) — Bacharelado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 1972.
Lírio Parisotto (Videolar-Innova) — Bacharelado em Medicina pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), em 1979.
O que o recorte permite observar
As 13 histórias mostram caminhos educacionais muito diferentes para a construção de grandes negócios. Há empresários com pós-graduação em universidades norte-americanas, médicos, administradores e profissionais de tecnologia, ao mesmo tempo em que aparecem empreendedores que tiveram acesso limitado até mesmo à educação básica.
Dentro da amostra, porém, o ensino superior é majoritário: nove dos 13 nomes analisados concluíram uma graduação. Isso não significa que a universidade tenha sido responsável pela construção de suas fortunas, assim como os quatro casos sem formação superior não demonstram que a educação formal seja dispensável.
O traço comum mais evidente está fora do diploma: todos os nomes selecionados construíram empresas ou grupos empresariais em escala muito superior às condições econômicas de suas famílias de origem. Justamente por serem histórias excepcionais, devem ser observadas como casos particulares de mobilidade e empreendedorismo, e não como uma fórmula replicável de sucesso.
Metodologia
O levantamento realizado pelo The College reúne 13 empresários brasileiros que nasceram em contextos de pobreza, origem familiar humilde ou grande dificuldade financeira e posteriormente construíram fortunas bilionárias.
A análise considera as informações de trajetória e formação acadêmica apresentadas no material compilado pelo The College. Dos 13 nomes, nove possuem ensino superior e quatro não concluíram uma graduação, o equivalente a aproximadamente 70% e 30% da amostra, respectivamente.
O levantamento não pretende estabelecer uma relação de causa e efeito entre formação acadêmica e patrimônio, nem sugerir que as trajetórias apresentadas representem um caminho típico de mobilidade social. No caso de Antonio Luiz Seabra, o bacharelado em Economia consta no material analisado, mas a instituição de ensino não foi confirmada em fontes públicas.
