Antes dos grandes escritórios, dos programas de estágio disputados e da consolidação da Faria Lima como um dos principais centros financeiros do país, São Paulo precisou construir a infraestrutura acadêmica que ajudaria a formar seus executivos, economistas, administradores e empreendedores.
A história dessas instituições acompanha, em grande medida, a própria transformação econômica da cidade e do estado. Algumas nasceram dentro de casas ou museus; outras surgiram para atender às necessidades da industrialização, profissionalizar a administração pública ou aproximar a academia do mercado. Há ainda escolas mais recentes, criadas já em um ambiente de startups, venture capital, tecnologia e sucessão empresarial.
O resultado é um ecossistema que não nasceu de um único modelo. Entre as instituições reunidas neste levantamento do The College estão universidades públicas, fundações privadas, escolas confessionais, instituições criadas pelo mercado financeiro e projetos educacionais financiados por empresários. As origens ajudam a explicar por que elas desenvolveram perfis tão diferentes ao longo do tempo.
Das salas improvisadas às primeiras escolas comerciais
A história mais antiga do levantamento começa em 1870. Naquele ano, a educadora Mary Ann Chamberlain e seu marido, o reverendo George Chamberlain, missionários presbiterianos americanos, passaram a ensinar crianças dentro da própria residência. A iniciativa atendia alunos que escolas de São Paulo não aceitavam por razões de classe social ou religião, incluindo filhos de abolicionistas e negros.
A experiência se transformaria na Escola Americana e, posteriormente, no Mackenzie. O nome veio do advogado nova-iorquino John Theron Mackenzie, que nunca esteve no Brasil, mas deixou uma doação que financiou a Escola de Engenharia, inaugurada em 1896. A área comercial apareceu cedo: a universidade registra em 1897 a primeira menção a um curso superior de negócios, hoje reunido no CCSA, sua Escola de Negócios.
Poucos anos depois, em 1902, nasceu a FECAP. São Paulo vivia um processo de industrialização e precisava de profissionais técnicos ligados ao comércio. O professor Horácio Berlinck e o vereador João Pedro da Veiga articularam a criação da Escola Prática de Comércio, aberta com 216 alunos. O conde Antônio Álvares Leite Penteado tornou-se seu principal doador e acabou dando nome à instituição.
Segundo a própria FECAP, ela foi a primeira instituição brasileira a abrir cursos superiores de Economia, em 1934, e Contabilidade, em 1939. Hoje, mantém forte associação com áreas como contabilidade e finanças.
A industrialização mudou também o perfil das escolas
A criação da USP, em 1934, veio em outro contexto. Depois da Revolução Constitucionalista de 1932, parte da elite paulista passou a apostar na ciência e no ensino superior como instrumentos de reconstrução de influência. Um decreto assinado por Armando de Salles Oliveira reuniu instituições existentes em torno de uma nova Faculdade de Filosofia.
A área de negócios demorou mais a ganhar estrutura própria. Em 1946 surgiu a FCEA, descrita pela própria faculdade como a primeira do país dedicada ao ensino e à pesquisa de economia, administração e contabilidade. Inicialmente, havia apenas Economia e Ciências Contábeis. A graduação em Administração de Empresas foi criada após a reforma de 1964, e o nome FEA passou a ser adotado em 1969.
Outro capítulo importante começou em 1941. Antes mesmo da existência de cursos de Administração no formato conhecido atualmente, o padre jesuíta Roberto Sabóia de Medeiros fundou, no bairro da Liberdade, a ESAN, Escola Superior de Administração de Negócios. A instituição foi inspirada em modelos americanos e financiada por empresários que enxergavam a expansão industrial que viria pela frente.
Cinco anos depois, o mesmo padre criou a Faculdade de Engenharia Industrial, a FEI. A instituição se mudaria para São Bernardo do Campo e se tornaria particularmente associada à formação de engenheiros para o ABC e para a indústria automobilística. Em 2001, ESAN, FEI e a faculdade de informática foram reunidas no Centro Universitário FEI, que mantém graduação em Administração, além de mestrado e doutorado na área.
PUC-SP, FAAP e ESPM seguiram caminhos próprios até os negócios
Nem todas as instituições nasceram como escolas de negócios.
A PUC-SP foi criada em agosto de 1946, quando o cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta reuniu a Faculdade de Filosofia de São Bento, de 1908, e a Faculdade Paulista de Direito. O título de “Pontifícia” veio no ano seguinte, concedido por Pio XII. A universidade se consolidou em áreas como Direito, Psicologia e Humanidades e também entrou para a história política brasileira em 1977, quando o campus de Perdizes foi invadido pela tropa comandada pelo coronel Erasmo Dias.
Na área empresarial, a FEA-PUC reúne Economia, Administração, Contábeis e Atuariais, além de mestrado e doutorado próprios. Sua tradição em economia heterodoxa ajuda a formar um perfil distinto de instituições mais diretamente associadas ao mercado financeiro.
A FAAP também nasceu com outra vocação. Em 1938, o conde Armando Álvares Penteado determinou em testamento que sua fortuna fosse destinada à criação de uma escola de artes e de um museu. Ele morreu em 1947, sem filhos, e a execução do projeto ficou com a viúva, Annie, e o irmão, Sílvio. A primeira faculdade, de Artes Plásticas e Comunicações, só abriu em 1967.
A aproximação com negócios veio nos anos 1970, com faculdades de Administração, Economia e Engenharia. Nos anos 1990 chegaram MBA próprio e Relações Internacionais. Há ainda um elo histórico com outra instituição do levantamento: o pai de Armando era o mesmo conde que financiou a FECAP.
Já a ESPM nasceu dentro de um museu. Em 1951, o publicitário Rodolfo Lima Martensen aceitou convite de Assis Chateaubriand para criar, no MASP, a Escola de Propaganda, numa época em que a publicidade era aprendida principalmente na prática. A instituição virou Escola Superior de Propaganda e Marketing em 1970, foi reconhecida pelo MEC em 1971 e abriu a pós-graduação em 1978. A graduação em Administração com ênfase em Marketing veio na gestão de Francisco Gracioso, na virada de 1989 para 1990.
FGV e a profissionalização da administração
A Fundação Getulio Vargas nasceu em 1944, no Rio de Janeiro, com a missão de profissionalizar a administração pública brasileira. Dez anos depois, em articulação entre governo e empresariado, a instituição chegou a São Paulo com a EAESP, estruturada com colaboração de professores da Michigan State University.
Diferentemente de escolas que passaram posteriormente a atuar em negócios, a EAESP já nasceu com essa vocação. Começou oferecendo cursos intensivos para executivos, e a graduação veio em 1959. Depois, a FGV-SP também passou a reunir a Escola de Economia, EESP, e a Escola de Direito.
A FGV foi ainda a primeira instituição brasileira a reunir as três principais acreditações internacionais de escolas de negócios — AACSB, EQUIS e AMBA — combinação conhecida como “tríplice coroa”, posteriormente conquistada também pelo Insper.
Unicamp e Unesp construíram modelos públicos diferentes da USP
Criada por lei em 1962 e instalada em outubro de 1966, a Unicamp foi concebida praticamente do zero. Zeferino Vaz recebeu a missão de montar uma universidade orientada desde o início à pesquisa e à pós-graduação e buscou cientistas brasileiros que estavam no exterior.
Na economia, o Departamento de Economia e Planejamento surgiu em 1968, a graduação em Ciências Econômicas em 1970 e o Instituto de Economia em 1984. O IE-Unicamp construiu uma interpretação própria da economia brasileira e se consolidou como uma das principais escolas heterodoxas e desenvolvimentistas do país, com presença histórica no debate sobre política econômica.
A Unesp, criada em 1976, seguiu outra lógica. Uma lei estadual reuniu em uma única universidade diferentes institutos isolados que já funcionavam pelo interior paulista, alguns com décadas de história. Na área de negócios, essa origem explica a descentralização: Ciências Econômicas e Administração Pública estão em Araraquara, enquanto Administração aparece em Jaboticabal e Tupã.
Do mercado financeiro às novas escolas privadas
A partir das décadas finais do século XX, a própria origem das instituições começou a refletir mais diretamente o mundo empresarial e financeiro.
O Ibmec foi criado em 1970 pela antiga Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. O Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais nasceu sem fins lucrativos para difundir conhecimentos sobre o mercado e formar profissionais para o setor financeiro. Em 1985, lançou o primeiro MBA em Finanças do Brasil; as graduações em Administração e Economia vieram em 1995.
A operação paulista teria trajetória própria. Criada em 1987, abriu graduações em Administração e Economia em 1999. No mesmo ano, as atividades de ensino do Ibmec foram vendidas a empresários do mercado financeiro, entre eles Cláudio Haddad e Paulo Guedes. Em 2004, Haddad doou a operação de São Paulo a um instituto sem fins lucrativos. O nome Insper surgiu em 2009. A instituição adicionou engenharias em 2014, Direito em 2021 e completou a tríplice coroa em 2017.
A FIA também nasceu de uma necessidade ligada à estrutura universitária. Em julho de 1980, professores do Departamento de Administração da FEA-USP criaram uma fundação privada para desenvolver atividades que a universidade pública não executava com a mesma agilidade, como consultoria, pesquisa aplicada e educação executiva paga, mantendo acordo de cooperação técnica com a USP. Nos anos 1980, participou de grandes projetos de gestão para ministérios e estatais, com apoio do Banco Mundial e do BID. O primeiro MBA veio em 1993; a graduação em Administração, em 2011.
Uma nova geração mistura negócios, tecnologia e empreendedorismo
As instituições mais recentes apresentam propostas ainda mais específicas.
A Saint Paul foi fundada em 2002 por José Cláudio Securato, então com 24 anos. A escola começou vendendo cursos curtos dentro de empresas e avançou para pós-graduações, MBAs e programas voltados a executivos nas áreas de finanças e gestão. Em dezembro de 2024, foi comprada pela EXAME, do grupo BTG Pactual, com Securato à frente da Exame Educação. O grupo anunciou posteriormente sua entrada na graduação em Administração.
A Link School of Business, idealizada em 2019 pelo investidor Álvaro Schocair, cofundador da Tarpon, adotou um modelo baseado na formação de empreendedores e em negócios reais desenvolvidos durante a graduação, inspirado na americana Babson. A primeira turma, com 50 alunos, começou em agosto de 2020. A escola criou um fundo para acelerar startups dos estudantes, lançou Ciência da Computação em 2024, abriu unidade em Miami e, em 2026, uma captação de R$ 55 milhões avaliou a companhia em R$ 550 milhões.
O Inteli, anunciado em 2021, também nasceu da aproximação entre educação e setor privado. André Esteves e Roberto Sallouti, do BTG Pactual, ouviram do investidor Doug Leone um alerta sobre a escassez de engenheiros no Brasil. O Instituto de Tecnologia e Liderança foi viabilizado por uma doação de R$ 200 milhões da família Esteves e instalado no IPT, no Butantã. Sua primeira turma entrou em fevereiro de 2022, em cursos que combinam computação, engenharia, negócios e liderança.
A Faculdade Belavista chegou em 2023 a partir de duas instituições anteriores: o ISE Business School, fundado em 1996 e associado ao IESE espanhol, e o CEU Law School. A graduação foi estruturada em Direito e Economia, com apenas 50 vagas por curso, dedicação integral, Método do Caso, Core Curriculum humanístico e parte das aulas em inglês.
Também criada em 2023, a PIB Education nasceu em Balneário Camboriú pelas mãos do empresário Mohamad Abou Wadi. Sua principal graduação é Administração voltada a filhos de empresários e sucessores de negócios familiares. O modelo trabalha com turmas de 50 alunos e mensalidade próxima de R$ 10 mil. A instituição anunciou chegada a São Paulo em 2026, na Vila Olímpia, em sociedade com o empresário Theo Braga.
Uma história que acompanha as mudanças da economia brasileira
A cronologia mostra que “escola de negócios” nunca significou uma única coisa. No século XIX, a origem podia estar em uma residência que desafiava barreiras sociais. No início do século XX, o objetivo era formar profissionais para comércio e industrialização. Depois vieram universidades públicas voltadas à pesquisa, instituições criadas para profissionalizar a administração e escolas conectadas diretamente ao mercado financeiro.
Nas últimas décadas, tecnologia, empreendedorismo, educação executiva e sucessão empresarial ganharam espaço ao lado de Administração, Economia e Contabilidade.
Mais do que uma sequência de datas, a trajetória dessas instituições registra como as demandas de formação mudaram junto com São Paulo e com a economia brasileira. Muito antes de existir uma “carreira Faria Lima”, já existiam escolas tentando responder à mesma pergunta que continua orientando parte do ensino de negócios: que tipo de profissional o próximo ciclo econômico vai exigir?
