Comandar a política econômica de um país exige lidar com decisões que afetam inflação, emprego, contas públicas, tributação, investimentos e crescimento. No Brasil, esse posto passou por diferentes configurações institucionais nas últimas décadas, mas permaneceu entre os cargos de maior relevância dentro do governo federal.

Desde a redemocratização, os responsáveis pelas pastas da Fazenda e da Economia enfrentaram contextos bastante distintos. Zélia Cardoso de Mello ficou associada ao Plano Collor e ao confisco da poupança, em um período de inflação elevada. Fernando Henrique Cardoso comandou a Fazenda durante a criação do Plano Real. Pedro Malan permaneceu no cargo durante a consolidação da nova moeda, enquanto nomes como Antonio Palocci e Guido Mantega estiveram à frente da política econômica em diferentes momentos dos anos 2000 e da década seguinte. Mais recentemente, Paulo Guedes conduziu a área econômica durante a pandemia.

Quando o foco passa das decisões tomadas no governo para a trajetória educacional desses nomes, surge um quadro relativamente diverso. Um levantamento realizado pelo The College com 18 ministros selecionados mostra que Economia é a graduação mais frequente, mas está longe de ser a única porta de entrada para o cargo.

Direito, Engenharia, Ciências Sociais e até Medicina aparecem entre as formações de quem assumiu o comando da economia brasileira.

Economia é a graduação mais frequente, mas representa menos da metade da amostra

Considerando a formação de graduação apresentada no levantamento, sete dos 18 ministros cursaram Economia: Paulo Guedes, Eduardo Guardia, Nelson Barbosa, Guido Mantega, Paulo Roberto Haddad, Zélia Cardoso de Mello e Maílson da Nóbrega. Mantega também possui bacharelado em Ciências Sociais.

O número confirma uma presença relevante de economistas no cargo, mas também evidencia que não existe uma formação acadêmica única entre os escolhidos pelos diferentes presidentes.

A segunda área com maior presença é Engenharia. Henrique Meirelles é formado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP; Joaquim Levy, em Engenharia Naval e Oceânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Pedro Malan, em Engenharia Elétrica pela PUC-Rio; e Luiz Carlos Bresser e Dilson Funaro cursaram Engenharia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Direito também aparece com frequência. Dario Durigan, Fernando Haddad, Ciro Gomes e Marcílio Marques Moreira possuem graduação na área.

Completam o grupo Fernando Henrique Cardoso, bacharel em Ciências Sociais pela USP, e Antonio Palocci, formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

O recorte não permite afirmar que determinada graduação prepare melhor um profissional para comandar a economia nacional. Ele mostra apenas quais formações aparecem com maior frequência entre os nomes analisados.

A pós-graduação aproxima trajetórias que começaram em áreas diferentes

Uma característica do grupo é que a diversidade observada na graduação diminui quando se analisa a formação posterior de parte dos ministros.

Economia aparece repetidamente em mestrados e doutorados, inclusive entre profissionais cuja primeira graduação foi em outra área. Joaquim Levy, por exemplo, graduou-se em Engenharia Naval e Oceânica, mas posteriormente fez mestrado em Economia pela Fundação Getulio Vargas e doutorado em Economia pela University of Chicago.

Pedro Malan seguiu trajetória semelhante: depois da graduação em Engenharia Elétrica pela PUC-Rio, concluiu doutorado em Economia na University of California, Berkeley.

Luiz Carlos Bresser, formado inicialmente em Engenharia, fez mestrado em Administração de Empresas na Michigan State University e doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo, onde também obteve livre-docência em Economia.

Há ainda trajetórias acadêmicas que se afastam da Economia mesmo nos níveis mais avançados. Fernando Haddad graduou-se em Direito, fez mestrado em Economia e, posteriormente, doutorado em Filosofia, todos pela USP. Fernando Henrique Cardoso concentrou sua formação em Ciências Sociais e Sociologia. Marcílio Marques Moreira, formado em Direito, fez mestrado em Ciência Política na Georgetown University.

A combinação mostra que a especialização econômica pode surgir depois da graduação, enquanto outras trajetórias chegam ao ministério com formação acadêmica concentrada em campos distintos.

USP aparece em metade das trajetórias analisadas

Outro padrão relevante está nas instituições de ensino.

A Universidade de São Paulo aparece na formação de nove dos 18 nomes apresentados no levantamento, seja na graduação, seja em etapas posteriores da trajetória acadêmica.

Dario Durigan cursou Direito na USP. Fernando Haddad realizou bacharelado em Direito, mestrado em Economia e doutorado em Filosofia na instituição. Eduardo Guardia concluiu doutorado em Economia pela universidade, enquanto Henrique Meirelles cursou Engenharia Civil na Escola Politécnica.

Guido Mantega fez duas graduações na USP e, posteriormente, doutorado em Sociologia do Desenvolvimento. Antonio Palocci estudou Medicina em Ribeirão Preto. Fernando Henrique Cardoso desenvolveu grande parte de sua trajetória acadêmica na universidade. Zélia Cardoso de Mello fez graduação e doutorado em Economia na instituição, e Luiz Carlos Bresser concluiu nela o doutorado e a livre-docência em Economia.

Instituições estrangeiras também aparecem de forma recorrente, principalmente na pós-graduação. University of Chicago, University of California, Berkeley, Georgetown University, Michigan State University, University of Sussex, University of Paris e New School for Social Research estão entre as universidades internacionais citadas.

O padrão sugere uma combinação, dentro da amostra, entre formação inicial predominantemente brasileira e especializações realizadas tanto no Brasil quanto no exterior.

A formação acadêmica dos 18 ministros analisados

Dario Durigan (2026-atual) — Bacharelado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), em 2007, e mestrado em Direito Constitucional pela Universidade de Brasília, em 2010. Nomeado por Luiz Inácio Lula da Silva.

Fernando Haddad (2023-26) — Bacharelado em Direito pela USP, em 1985; mestrado em Economia pela USP, em 1990; e doutorado em Filosofia pela USP, em 1996. Nomeado por Luiz Inácio Lula da Silva.

Paulo Guedes (2019-23) — Bacharelado em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1971; mestrado em Economia pela Fundação Getulio Vargas, em 1975; mestrado em Economia pela University of Chicago, em 1977; e doutorado em Economia pela mesma universidade, em 1979. Nomeado por Jair Bolsonaro.

Eduardo Guardia (2018-19) — Bacharelado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 1990; mestrado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1992; e doutorado em Economia pela USP, em 1994. Nomeado por Michel Temer.

Henrique Meirelles (2016-18) — Bacharel em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP, em 1972; mestrado em Administração no Instituto Coppead da UFRJ, em 1978; e especialização em Advanced Management na Harvard Business School, em 1980. Nomeado por Michel Temer.

Nelson Barbosa (2015-16) — Bacharelado e mestrado em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1991 e 1995, respectivamente; e doutorado em Economia pela New School for Social Research, em 2002. Nomeado por Dilma Rousseff.

Joaquim Levy (2015-15) — Bacharelado em Engenharia Naval e Oceânica pela UFRJ, em 1984; mestrado em Economia pela Fundação Getulio Vargas, em 1987; e doutorado em Economia pela University of Chicago, em 1992. Nomeado por Dilma Rousseff.

Guido Mantega (2006-15) — Bacharelados em Economia e Ciências Sociais pela USP, em 1972; especialização em Sociologia pela University of Sussex, em 1977; e doutorado em Sociologia do Desenvolvimento pela USP, em 1982. Nomeado por Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Antonio Palocci (2003-06) — Bacharelado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), em 1983. Nomeado por Luiz Inácio Lula da Silva.

Pedro Malan (1995-2003) — Bacharel em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da PUC-Rio, em 1965, e doutorado em Economia pela University of California, Berkeley, em 1973. Nomeado por Fernando Henrique Cardoso.

Ciro Gomes (1994-95) — Bacharelado em Direito pela Universidade Federal do Ceará, em 1979. Nomeado por Itamar Franco.

Fernando Henrique Cardoso (1993-94) — Bacharelado em Ciências Sociais pela USP, em 1952; especialização em Sociologia pela USP, em 1953; doutorado em Sociologia pela USP, em 1961; pós-graduação em Sociologia Industrial pela University of Paris, em 1963; e livre-docência em Sociologia pela USP, também em 1963. Nomeado por Itamar Franco.

Paulo Roberto Haddad (1992-93) — Bacharelado em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1962, e especialização em Planejamento Econômico pelo Institute of Social Studies of Haia, na Holanda, em 1966. Nomeado por Itamar Franco.

Marcílio Marques Moreira (1991-92) — Bacharelado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 1957, e mestrado em Ciência Política pela Georgetown University, em 1963. Nomeado por Fernando Collor.

Zélia Cardoso de Mello (1990-91) — Bacharelado em Economia pela Faculdade de Economia e Administração da USP, em 1975, e doutorado em Economia pela USP, em 1981. Nomeada por Fernando Collor.

Maílson da Nóbrega (1987-90) — Bacharelado em Economia pelo Centro de Ensino Universitário de Brasília (CEUB), em 1974. Nomeado por José Sarney.

Luiz Carlos Bresser (1987-87) — Bacharelado em Engenharia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 1956; mestrado em Administração de Empresas pela Michigan State University, em 1961; doutorado em Economia pela USP, em 1972; e livre-docência em Economia pela USP, em 1984. Nomeado por José Sarney.

Dilson Funaro (1985-87) — Bacharelado em Engenharia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 1956. Nomeado por José Sarney.

O diploma é apenas uma parte do perfil de quem chega ao cargo

Os dados mostram uma concentração importante em Economia, mas não suficiente para caracterizar a pasta como um espaço ocupado exclusivamente por economistas. Dos 18 nomes analisados, 11 fizeram sua primeira graduação em outras áreas ou possuem, como no caso de Guido Mantega, formação adicional além da Economia.

A variedade também ajuda a dimensionar o peso das escolhas presidenciais. O responsável pela política econômica não é selecionado apenas a partir de um diploma específico: diferentes governos recorreram a acadêmicos, economistas, engenheiros, juristas, gestores e profissionais com trajetórias construídas em outros campos.

Isso não permite relacionar diretamente a formação de cada ministro ao desempenho econômico de sua gestão. Crises, condições internacionais, decisões políticas, composição do Congresso, situação fiscal e diversos outros fatores interferem nos resultados de cada período.

O levantamento permite observar, porém, que a formação de quem comandou a economia brasileira nas últimas décadas foi mais diversa do que o próprio nome do ministério poderia sugerir.

Metodologia

O levantamento realizado pelo The College reúne 18 dos principais ministros responsáveis pelas pastas da Fazenda e da Economia desde a redemocratização, considerando informações disponíveis em dados públicos e biografias oficiais.

Por limitação de espaço no carrossel original, ficaram de fora Francisco Dornelles, Gustavo Krause, Rubens Ricupero, Eliseu Resende e Bernard Appy. Segundo o critério informado no material, a exclusão considerou o menor tempo no cargo, sem qualquer avaliação sobre a relevância das respectivas atuações.

As formações, instituições, anos e períodos no ministério reproduzidos nesta matéria seguem os dados apresentados no levantamento original do The College.

Publicado em [02-05-2026]