A Presidência da República é o cargo político mais alto do país, mas a legislação brasileira não estabelece uma formação acadêmica específica para quem pretende ocupá-lo. Na prática, isso significa que as trajetórias educacionais de quem chega a uma disputa presidencial podem ser tão diferentes quanto suas experiências profissionais e políticas.
Um levantamento realizado pelo The College com 12 pré-candidatos e candidatos declarados à Presidência do Brasil em 2026 evidencia essa diversidade. No grupo analisado, há desde um nome que não concluiu o ensino fundamental até candidatos com mestrado, doutorado e pós-doutorado.
Entre os 12 nomes reunidos, nove possuem ensino superior completo. Outros dois chegaram à universidade, mas não concluíram a graduação, enquanto um não completou o ensino fundamental e, posteriormente, realizou formação técnica.
Os dados não estabelecem qualquer relação entre escolaridade e capacidade para exercer um cargo político. O recorte permite, porém, observar como pessoas que chegaram à disputa pelo comando do Executivo federal construíram trajetórias acadêmicas bastante diferentes.
Não existe uma formação dominante entre os nomes analisados
Diferentemente do que ocorre em algumas carreiras públicas ou corporativas, nas quais determinados cursos aparecem com maior recorrência, a lista de pré-candidatos reúne graduações distribuídas por diferentes áreas do conhecimento.
Direito é a formação que mais se repete quando também são consideradas as graduações não concluídas. Flávio Bolsonaro concluiu o bacharelado na Universidade Cândido Mendes, enquanto Renan Santos cursou Direito na Universidade de São Paulo (USP) sem concluir a graduação. Aldo Rebelo também iniciou o curso, na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), mas não o finalizou.
Medicina aparece em duas trajetórias. Ronaldo Caiado graduou-se pela Escola de Medicina e Cirurgia da UNIRIO e, posteriormente, seguiu sua formação em Cirurgia da Coluna Vertebral e Ortopedia e Traumatologia. Augusto Cury, por sua vez, formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP) antes de avançar para estudos em Psiquiatria e Psicologia Multifocal.
Jornalismo também aparece duas vezes, com Rui Costa Pimenta, formado pela Faculdade Cásper Líbero, e Edmilson Costa, graduado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
As demais formações de nível superior aparecem individualmente: Administração de Empresas, Turismo, História e Odontologia.
Essa distribuição torna difícil apontar um perfil acadêmico predominante na amostra. O que os dados mostram é justamente a ausência de um único percurso educacional associado à entrada na disputa presidencial.
Cinco trajetórias avançam para mestrado, doutorado ou pós-doutorado
O contraste também aparece quando se observa o nível de aprofundamento acadêmico após a graduação.
Ronaldo Caiado concluiu, em 1977, uma especialização em Cirurgia da Coluna Vertebral pela Université de Paris, na França, e, em 1979, um mestrado em Ortopedia e Traumatologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Hertz Dias seguiu sua trajetória acadêmica dentro da Universidade Federal do Maranhão. Depois da licenciatura em História, concluída em 2000, obteve mestrado em Educação pela própria UFMA, em 2010.
Augusto Cury acrescentou à graduação em Medicina uma pós-graduação em Psiquiatria pela PUC-SP, em 1990, e um doutorado em Psicologia Multifocal pela Florida Christian University, nos Estados Unidos, em 2013.
Edmilson Costa apresenta o nível acadêmico mais avançado descrito no levantamento. Depois de se formar em Jornalismo pela UFMA, em 1974, concluiu doutorado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1996, e pós-doutorado em Globalização e Capitalismo Contemporâneo pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da própria Unicamp, em 2002.
Flávio Bolsonaro também aparece com três formações posteriores ao bacharelado em Direito: pós-graduação em Ciências Políticas pela UFRJ, especialização em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e especialização em Empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Três dos 12 não têm ensino superior completo
Na outra ponta da amostra, três nomes não possuem uma graduação concluída.
Luiz Inácio Lula da Silva aparece no levantamento com ensino fundamental incompleto, até a 4ª série, em 1956. Em 1963, realizou curso técnico de Torneiro Mecânico pelo SENAI.
Renan Santos ingressou no curso de Direito da Universidade de São Paulo, em 2003, mas não concluiu a graduação. Aldo Rebelo também cursou Direito, na Universidade Federal de Alagoas, em 1975, sem finalizar o curso.
O dado ajuda a dimensionar a amplitude das trajetórias reunidas: dentro de uma mesma disputa política, convivem históricos educacionais que vão da formação técnica ao pós-doutorado.
Essa diferença, por si só, não permite avaliar competência política, capacidade administrativa ou preparo para a Presidência. A escolaridade é apenas uma das dimensões possíveis para analisar a trajetória de uma liderança pública e não substitui a avaliação de experiência profissional, atuação política, propostas ou resultados obtidos ao longo da carreira.
Universidades públicas aparecem com frequência nas trajetórias
Outro padrão perceptível está nas instituições frequentadas pelos nomes analisados.
Universidades públicas brasileiras aparecem repetidamente. UFRJ, UFMA, Unicamp, USP, UFAL, UFRN e UNIRIO estão presentes em diferentes momentos das trajetórias acadêmicas reunidas.
A Universidade Federal do Maranhão se destaca por aparecer em três registros: na licenciatura e no mestrado de Hertz Dias e na graduação de Edmilson Costa. A UFRJ também surge em mais de uma trajetória, tanto na pós-graduação de Flávio Bolsonaro quanto no mestrado de Ronaldo Caiado.
Entre as instituições privadas estão a Fundação Getulio Vargas, a Universidade Cândido Mendes, a Estácio, a Faculdade Cásper Líbero, a PUC-SP e a Florida Christian University.
Há ainda experiências internacionais. Ronaldo Caiado realizou uma especialização na Université de Paris, na França, enquanto Augusto Cury concluiu seu doutorado na Florida Christian University, nos Estados Unidos.
A formação acadêmica dos 12 nomes do levantamento
A lista completa apresentada pelo The College é:
1. Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
1956 — Ensino fundamental incompleto, até a 4ª série
1963 — Curso Técnico em Torneiro Mecânico pelo SENAI
2. Flávio Bolsonaro (PL)
2005 — Bacharelado em Direito pela Universidade Cândido Mendes
2006 — Pós-graduação em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
2007 — Especialização em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ)
2008 — Especialização em Empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas (FGV)
3. Ronaldo Caiado (PSD)
1972 — Graduação em Medicina pela Escola de Medicina e Cirurgia (UNIRIO)
1977 — Especialização em Cirurgia da Coluna Vertebral pela Université de Paris, na França
1979 — Mestrado em Ortopedia e Traumatologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
4. Romeu Zema (Novo)
1987 — Bacharelado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV)
5. Renan Santos (Missão)
2003 — Cursou graduação em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), mas não concluiu
6. Aldo Rebelo (Democracia Cristã)
1975 — Cursou graduação em Direito pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), mas não concluiu
7. Cabo Daciolo (Mobiliza)
2010 — Bacharelado em Turismo pela Estácio
2011 — Formação de Bombeiro Militar pelo Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ)
8. Augusto Cury (Avante)
1984 — Graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP)
1990 — Pós-graduação em Psiquiatria pela PUC-SP
2013 — Doutorado em Psicologia Multifocal pela Florida Christian University, nos Estados Unidos
9. Hertz Dias (PSTU)
2000 — Licenciatura em História pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
2010 — Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
10. Samara Martins (UP)
2012 — Graduação em Odontologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
11. Rui Costa Pimenta (PCO)
1982 — Graduação em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero
12. Edmilson Costa (PCB)
1974 — Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
1996 — Doutorado em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
2002 — Pós-doutorado em Globalização e Capitalismo Contemporâneo pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
O que o recorte permite observar
Se há um ponto comum entre os dados, ele está menos em determinada faculdade ou curso e mais na heterogeneidade da amostra. Há profissionais oriundos de Medicina, Administração, Jornalismo, História, Turismo, Odontologia e Direito, além de trajetórias sem graduação concluída.
Também não aparece uma relação linear entre formação acadêmica e entrada na política. Alguns nomes construíram currículos universitários extensos, enquanto outros chegaram a posições de projeção nacional com percursos educacionais mais curtos.
Por isso, o levantamento funciona melhor como um retrato das trajetórias do que como um parâmetro para definir qual seria a formação “adequada” para um presidente. O nível de escolaridade é uma informação relevante sobre a biografia de um candidato, mas os dados, isoladamente, não permitem estabelecer uma hierarquia de preparo para o exercício do cargo.
Metodologia
O levantamento realizado pelo The College reúne a formação acadêmica apresentada para 12 pré-candidatos e candidatos declarados à eleição presidencial de 2026, identificados por partido. Foram consideradas informações disponíveis em dados públicos, incluindo ensino básico, cursos técnicos, graduações concluídas ou não concluídas, especializações, pós-graduações, mestrados, doutorados e pós-doutorados informados no material original.
A análise se limita às formações compiladas no levantamento e não pretende avaliar desempenho político, competência administrativa ou estabelecer relação causal entre escolaridade e capacidade para exercer a Presidência da República.
