Algumas das empresas de tecnologia mais conhecidas das últimas décadas começaram longe de grandes sedes corporativas. Microsoft, Facebook, Dell, Snapchat, Stripe, Reddit, Figma, Dropbox e outras companhias que chegaram a valer bilhões de dólares nasceram quando pelo menos parte de seus fundadores ainda estava na faculdade.
Um levantamento realizado pelo The College reuniu 15 startups americanas e canadenses criadas nesse contexto e mapeou 35 fundadores. Entre eles, 89% ainda cursavam o ensino superior no momento da fundação das empresas.
Stanford e Harvard aparecem como as universidades com maior presença entre os fundadores analisados, seguidas pelo MIT. Mais do que uma concentração de diplomas de instituições prestigiadas, porém, as histórias mostram outra característica: em diversos casos, a universidade funcionou como espaço de encontro entre sócios, desenvolvimento de ideias, projetos acadêmicos e acesso a redes que depois se transformaram em empresas.
O recorte não permite concluir que frequentar uma faculdade de elite aumenta, por si só, a probabilidade de construir uma companhia bilionária. Trata-se de uma amostra selecionada justamente por reunir casos que alcançaram valorizações muito elevadas. Ainda assim, ela ajuda a observar como o ambiente universitário apareceu no início de algumas das empresas mais relevantes da economia digital.
Harvard, Stanford e MIT aparecem repetidamente nas histórias
Harvard está ligada a dois dos casos mais emblemáticos da lista. A Microsoft foi fundada em 1975 por Bill Gates, então aluno da universidade, ao lado de Paul Allen, que havia abandonado a Washington State University. Amigos desde a escola em Seattle, os dois desenvolveram um interpretador BASIC para o microcomputador Altair 8800. Décadas depois, a Microsoft se tornou uma das maiores empresas do mundo, com valor em torno de US$ 3,1 trilhões no recorte apresentado pelo levantamento.
Também em Harvard surgiu o Facebook. Em 2004, Mark Zuckerberg, Eduardo Saverin, Dustin Moskovitz, Chris Hughes e Andrew McCollum, todos estudantes da instituição, criaram uma rede inicialmente voltada aos próprios alunos. A plataforma se espalhou por outras universidades da Ivy League antes de ser aberta ao público em 2006. Hoje, a empresa faz parte da Meta, avaliada em torno de US$ 1,55 trilhão no material analisado.
Stanford também se repete em empresas de diferentes gerações. O Snapchat nasceu em 2011 a partir de uma ideia desenvolvida por Evan Spiegel e Reggie Brown, então estudantes da universidade, com Bobby Murphy, recém-formado pela mesma instituição. Já a DoorDash, criada em 2013, reuniu Tony Xu, formado em Stanford, e os estudantes de Ciência da Computação Stanley Tang e Andy Fang. A ideia começou após entrevistas com restaurantes de Palo Alto que relatavam dificuldades para realizar entregas.
Theranos representa uma trajetória muito diferente. Elizabeth Holmes fundou a empresa em 2003 enquanto estudava em Stanford e abandonou a universidade no ano seguinte, aos 19 anos. A companhia chegou a uma avaliação de US$ 9 bilhões em 2014, mas colapsou depois que o Wall Street Journal revelou, em 2015, problemas com a tecnologia divulgada pela empresa. Holmes foi condenada por fraude em 2022. É uma exceção importante dentro do levantamento: atingir uma avaliação bilionária não significa necessariamente construir um negócio sustentável ou bem-sucedido no longo prazo.
Em várias empresas, a faculdade foi também o lugar onde os fundadores se encontraram
Os dados sugerem que o papel da universidade nesses casos foi além da formação acadêmica formal.
No Reddit, Steve Huffman e Alexis Ohanian estavam no último ano da Universidade da Virgínia quando fundaram a empresa, em 2005. O projeto integrou a primeira turma da Y Combinator e se transformou em uma das maiores comunidades da internet. O Reddit abriu capital em 2024 e atingiu pico de valuation de aproximadamente US$ 54 bilhões em 2025, segundo os dados compilados no carrossel.
A Figma foi fundada em 2012 por Dylan Field, então estudante de Brown e contemplado com a Thiel Fellowship de US$ 100 mil, e Evan Wallace, recém-formado em Ciência da Computação pela mesma universidade. A ferramenta só seria lançada quatro anos depois. Em agosto de 2025, abriu capital com valor de mercado de aproximadamente US$ 68 bilhões.
Na Scale AI, Alexandr Wang estudava no MIT e tinha 19 anos quando criou a companhia em 2016 ao lado de Lucy Guo, que já havia deixado Carnegie Mellon com a Thiel Fellowship. Em junho de 2025, a Meta investiu US$ 14,3 bilhões por 49% da empresa, em uma transação que atribuiu valuation de US$ 29 bilhões à companhia.
A proximidade acadêmica também aparece na Dropbox. Drew Houston, recém-formado pelo MIT, fundou a empresa em 2007 ao lado de Arash Ferdowsi, que estudava na instituição e abandonou o curso para entrar como cofundador. A Dropbox alcançou valuation próximo de US$ 17 bilhões em 2018 e, no recorte do levantamento, vale em torno de US$ 7 bilhões.
Abandonar a graduação aparece em vários casos — mas depois da empresa começar
Alguns dos fundadores mais conhecidos da lista são também exemplos clássicos de abandono universitário. O detalhe importante é a ordem dos acontecimentos: em boa parte desses casos, a saída da faculdade aconteceu depois que uma oportunidade empresarial concreta já havia surgido.
Michael Dell começou a montar e vender computadores enquanto era calouro de pré-medicina na University of Texas at Austin. Fundou a empresa em 1984 e abandonou a graduação em 1985 para se dedicar à PC’s Limited, posteriormente rebatizada de Dell. A companhia atingiu recentemente uma avaliação próxima de US$ 152 bilhões em 2026, segundo o levantamento.
Os irmãos Patrick e John Collison também deixaram MIT e Harvard, respectivamente, para trabalhar integralmente na Stripe, fundada em 2010. A empresa desenvolveu infraestrutura de pagamentos para negócios digitais e atingiu pico de valuation de US$ 106,7 bilhões em 2025.
A Box oferece uma trajetória semelhante. Aaron Levie e Sam Ghods cursavam a University of Southern California, enquanto Dylan Smith estudava em Duke, quando começaram a empresa em 2005. Os fundadores abandonaram a graduação para se dedicar ao negócio, que posteriormente migrou do armazenamento voltado ao consumidor para o mercado corporativo.
Esses casos, portanto, não mostram simplesmente que “não é necessário estudar”. Mostram que alguns fundadores deixaram a universidade quando suas empresas já apresentavam um caminho concreto de desenvolvimento. O levantamento não permite comparar essas trajetórias com a enorme quantidade de estudantes que abandonam cursos superiores sem criar empresas de grande porte.
Das redes sociais à inteligência artificial, as empresas atravessam diferentes gerações da tecnologia
A amostra também funciona como uma pequena linha do tempo da indústria de tecnologia.
Microsoft e BlackBerry surgiram em 1975 e 1984, respectivamente. A BlackBerry, criada inicialmente como Research In Motion por Mike Lazaridis, então estudante da Universidade de Waterloo, e Doug Fregin, da Universidade de Windsor, chegou a cerca de US$ 80 bilhões de valuation em 2008, antes de perder espaço no mercado de smartphones.
Nos anos 2000 surgiram Facebook, Reddit, Dropbox, Twitch, Box e WordPress. Este último foi criado em 2003 por Matt Mullenweg, calouro na Universidade de Houston, e Mike Little, programador no Reino Unido sem vínculo universitário. O projeto evoluiu para um dos sistemas de gerenciamento de conteúdo mais utilizados da internet.
A Twitch também começou de outra forma. Justin Kan e Emmett Shear estavam no último ano de Yale quando fundaram a Kiko, em 2005. Posteriormente, o projeto evoluiu para Justin.tv, com a entrada de Kyle Vogt, então no MIT, e finalmente passou a se concentrar em games sob a marca Twitch. A Amazon comprou a empresa em 2014 por cerca de US$ 1 bilhão.
Já a década de 2010 trouxe Snapchat, Stripe, Figma, DoorDash e Scale AI, empresas ligadas a redes sociais, pagamentos digitais, design colaborativo, logística e inteligência artificial. Embora tenham surgido em momentos e mercados diferentes, boa parte delas compartilha um ponto de origem: fundadores muito jovens inseridos em ambientes universitários com forte concentração de talentos técnicos.
As 15 empresas analisadas
O levantamento do The College inclui:
Microsoft — Harvard: fundada em 1975 por Bill Gates e Paul Allen.
Facebook — Harvard: fundada em 2004 por Mark Zuckerberg, Eduardo Saverin, Dustin Moskovitz, Chris Hughes e Andrew McCollum.
Dell — University of Texas at Austin: fundada em 1984 por Michael Dell.
Snapchat — Stanford: fundado em 2011 por Evan Spiegel, Reggie Brown e Bobby Murphy.
DoorDash — Stanford: fundada em 2013 por Tony Xu, Stanley Tang e Andy Fang.
Stripe — MIT e Harvard: fundada em 2010 por Patrick Collison e John Collison.
BlackBerry — Waterloo e Windsor: fundada como Research In Motion em 1984 por Mike Lazaridis e Doug Fregin.
Figma — Brown: fundada em 2012 por Dylan Field e Evan Wallace.
Reddit — University of Virginia: fundado em 2005 por Steve Huffman e Alexis Ohanian.
Scale AI — MIT: fundada em 2016 por Alexandr Wang e Lucy Guo.
Dropbox — MIT: fundada em 2007 por Drew Houston e Arash Ferdowsi.
Theranos — Stanford: fundada em 2003 por Elizabeth Holmes.
WordPress — University of Houston: criado em 2003 por Matt Mullenweg e Mike Little.
Twitch — Yale e MIT: trajetória iniciada em 2005 por Justin Kan e Emmett Shear, com Kyle Vogt posteriormente integrando o time.
Box — USC e Duke: fundada em 2005 por Aaron Levie, Sam Ghods e Dylan Smith.
O padrão está menos no diploma e mais no ambiente
O dado de que 89% dos 35 fundadores ainda estavam cursando a faculdade quando suas empresas foram criadas coloca a universidade em uma posição peculiar dentro deste recorte. Em vários casos, ela não aparece apenas como uma etapa anterior à carreira, mas como o próprio ambiente no qual os futuros sócios se conheceram, identificaram problemas, testaram projetos ou tiveram contato com comunidades técnicas e empreendedoras.
Isso não estabelece uma relação de causa e efeito. Stanford, Harvard, MIT e outras instituições citadas também selecionam estudantes com desempenho acadêmico elevado e estão inseridas em ecossistemas com acesso incomum a pesquisadores, investidores, empresas e redes profissionais. Separar o peso de cada um desses fatores exigiria uma análise muito mais ampla.
O levantamento mostra, no entanto, que entre estas 15 histórias empresariais a faculdade frequentemente funcionou menos como simples caminho até um diploma e mais como um ecossistema de formação, conexão e experimentação.
Metodologia
O levantamento foi realizado pelo The College a partir de dados públicos disponíveis em biografias, históricos das empresas e perfis de seus fundadores. Foram analisadas 15 empresas americanas e canadenses que atingiram avaliações bilionárias e que tiveram estudantes universitários envolvidos em sua fundação, totalizando 35 fundadores mapeados.
Segundo os dados compilados pelo The College, 89% dos fundadores ainda cursavam a faculdade no momento da criação da empresa. Stanford e Harvard aparecem como as instituições com maior número de fundadores no levantamento, seguidas pelo MIT.
Os valores de mercado e valuations apresentados correspondem aos períodos indicados no material original e podem variar ao longo do tempo. A seleção não constitui um ranking das melhores universidades para empreendedores nem permite concluir que a formação universitária tenha causado o sucesso das empresas analisadas.
