No primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, realizado em 4 de outubro, eleitores que compareceram a locais de votação instalados em algumas das principais instituições de ensino superior de São Paulo apresentaram comportamentos eleitorais bastante diferentes entre si.

Um levantamento realizado pelo The College somou os votos para presidente registrados nas seções eleitorais de dez instituições paulistas: Insper, Universidade Federal do ABC (UFABC), Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ESPM, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade de São Paulo (USP).

O resultado mostra uma divisão clara. Flávio Bolsonaro foi o candidato mais votado em três desses locais — Insper, UFABC e FAAP. Lula liderou nos outros sete.

As diferenças entre as instituições, porém, são mais expressivas quando se observa o tamanho das margens. Enquanto Insper e USP aparecem em extremos opostos do levantamento, algumas faculdades registraram uma disputa consideravelmente mais equilibrada.

Há ainda uma ressalva fundamental: os números não representam o voto dos estudantes dessas universidades. As instituições analisadas funcionaram como locais de votação e receberam qualquer eleitor cadastrado em suas respectivas seções, independentemente de vínculo acadêmico.

Insper, UFABC e FAAP foram as únicas com Flávio Bolsonaro na liderança

Entre as dez instituições analisadas, o Insper apresentou a maior proporção de votos em Flávio Bolsonaro. O candidato recebeu 51,6% dos votos registrados no local, contra 32,7% de Lula. Caiado teve 5,3%, Renan Santos 4,7%, Augusto Cury 3,5% e os demais candidatos, reunidos na categoria “Outros”, 2,2%.

A UFABC veio logo depois. Nas seções instaladas na instituição em Santo André, Flávio recebeu 50,3%, enquanto Lula teve 38,5%. Caiado registrou 2,3%, Renan Santos 3,8%, Augusto Cury 4,0% e outros candidatos, 1,1%.

Na FAAP, em Higienópolis, Flávio Bolsonaro também terminou à frente, mas sem ultrapassar a metade dos votos: foram 49,1%, ante 38,5% de Lula. Caiado ficou com 4,6%, Renan Santos com 3,7%, Augusto Cury com 2,4% e outros candidatos com 1,7%.

Nas demais sete instituições, a ordem se inverteu.

Lula chegou a 65,1% na USP e 60,8% no Mackenzie

A maior votação proporcional de Lula entre as instituições analisadas ocorreu nas seções da USP localizadas no Centro/Sé de São Paulo. O presidente recebeu 65,1% dos votos, enquanto Flávio Bolsonaro ficou com 27,2%. Caiado teve 1,8%, Renan Santos 2,6%, Augusto Cury 2,2% e outros, 1,1%.

No Mackenzie, considerando os locais de votação em Higienópolis e Consolação, Lula alcançou 60,8%, contra 30,3% de Flávio. Foi a segunda instituição da amostra em que o candidato ultrapassou 60%.

A vantagem também foi ampla na FECAP, onde Lula teve 57,0%, diante de 33,5% de Flávio, e na Unicamp, com 56,5% contra 32,1%.

Na UFSCar, Lula recebeu 52,3% e Flávio, 37,2%. Já na PUC-SP, considerando as seções de Perdizes, Consolação e Ipiranga, o resultado foi de 50,2% para Lula e 38,6% para Flávio.

A ESPM foi a instituição com vitória de Lula em que a diferença entre os dois candidatos ficou menor: 46,7% contra 38,1%.

Quando a disputa é reduzida a Flávio e Lula, os extremos ficam ainda mais claros

O The College também recalculou os resultados considerando exclusivamente os votos recebidos pelos dois candidatos mais votados em cada instituição.

Nesse cenário, Flávio Bolsonaro teria 61,2% dos votos do Insper, ante 38,8% de Lula. Na UFABC, a divisão seria de 56,6% a 43,4%; na FAAP, de 56,1% a 43,9%.

Entre as instituições lideradas por Lula, a ESPM aparece como a mais equilibrada: 55,1% para Lula e 44,9% para Flávio. Na PUC-SP, seriam 56,5% a 43,5%, e na UFSCar, 58,4% a 41,6%.

A distância cresce nas quatro últimas instituições. Lula teria 63,0% na FECAP, 63,8% na Unicamp, 66,7% no Mackenzie e 70,5% na USP.

A comparação permite dimensionar as margens entre os dois principais candidatos. Flávio abriu sua maior vantagem no Insper, com 19,0 pontos percentuais, seguido pela UFABC, com 11,8 pontos, e pela FAAP, com 10,7 pontos.

Lula, por sua vez, abriu 8,6 pontos na ESPM, 11,6 na PUC-SP, 15,2 na UFSCar, 23,6 na FECAP, 24,4 na Unicamp, 30,6 no Mackenzie e 37,9 pontos na USP.

O voto registrado nas faculdades também se distancia do resultado das próprias cidades

Outra comparação feita pelo levantamento coloca os resultados das instituições diante da margem registrada entre Flávio e Lula nas respectivas cidades.

Em São Paulo, Lula terminou 4,4 pontos percentuais à frente de Flávio. Mesmo dentro da mesma cidade, porém, os locais de votação instalados nas instituições apresentaram diferenças consideráveis.

O Insper foi o caso de maior deslocamento em direção a Flávio entre as instituições paulistanas: sua margem ficou 23,4 pontos percentuais mais favorável ao candidato do que a registrada no conjunto da cidade. Na FAAP, a diferença foi de 15,1 pontos na mesma direção.

Na outra ponta, a USP apresentou uma margem 33,5 pontos percentuais mais favorável a Lula do que São Paulo como um todo. No Mackenzie, foram 26,1 pontos; na FECAP, 19,1; na PUC-SP, 7,2; e na ESPM, 4,1 pontos.

Isso significa que locais de votação situados na mesma cidade — e, em alguns casos, em regiões relativamente próximas — produziram resultados eleitorais bastante diferentes.

Fora da capital, o contraste também aparece.

Em Campinas, Flávio terminou a votação municipal 13,8 pontos à frente de Lula. Nas seções da Unicamp, porém, Lula venceu por 24,4 pontos. A distância entre a margem observada na universidade e a da cidade chegou, portanto, a 38,2 pontos percentuais em direção a Lula — o maior desvio encontrado no levantamento.

Em São Carlos, onde Flávio venceu Lula por 8,3 pontos na cidade, as seções da UFSCar deram vantagem de 15,2 pontos a Lula. A diferença em relação ao resultado municipal foi de 23,5 pontos na direção do petista.

Já em Santo André, a relação ocorreu no sentido contrário. Flávio venceu Lula por 6,0 pontos na cidade e por 11,8 pontos na UFABC, fazendo com que as seções instaladas na universidade apresentassem uma margem 5,8 pontos mais favorável a Flávio.

Resultado completo nas dez instituições

Considerando todos os candidatos apresentados no levantamento, os resultados foram:

Insper — São Paulo (Vila Olímpia) — 7.811 votantes: Flávio Bolsonaro 51,6%; Lula 32,7%; Caiado 5,3%; Renan Santos 4,7%; Augusto Cury 3,5%; Outros 2,2%.

UFABC — Santo André — 10.166 votantes: Flávio Bolsonaro 50,3%; Lula 38,5%; Caiado 2,3%; Renan Santos 3,8%; Augusto Cury 4,0%; Outros 1,1%.

FAAP — São Paulo (Higienópolis) — 8.155 votantes: Flávio Bolsonaro 49,1%; Lula 38,5%; Caiado 4,6%; Renan Santos 3,7%; Augusto Cury 2,4%; Outros 1,7%.

PUC-SP — São Paulo (Perdizes, Consolação e Ipiranga) — 23.454 votantes: Flávio Bolsonaro 38,6%; Lula 50,2%; Caiado 3,5%; Renan Santos 3,4%; Augusto Cury 2,8%; Outros 1,5%.

ESPM — São Paulo (Vila Mariana) — 5.778 votantes: Flávio Bolsonaro 38,1%; Lula 46,7%; Caiado 4,4%; Renan Santos 5,0%; Augusto Cury 3,9%; Outros 1,9%.

UFSCar — São Carlos — 2.768 votantes: Flávio Bolsonaro 37,2%; Lula 52,3%; Caiado 2,3%; Renan Santos 3,4%; Augusto Cury 3,5%; Outros 1,3%.

FECAP — São Paulo (Liberdade e Bela Vista) — 7.312 votantes: Flávio Bolsonaro 33,5%; Lula 57,0%; Caiado 2,7%; Renan Santos 3,0%; Augusto Cury 2,8%; Outros 1,0%.

Unicamp — Campinas — 5.203 votantes: Flávio Bolsonaro 32,1%; Lula 56,5%; Caiado 2,8%; Renan Santos 3,6%; Augusto Cury 2,9%; Outros 2,1%.

Mackenzie — São Paulo (Higienópolis e Consolação) — 16.887 votantes: Flávio Bolsonaro 30,3%; Lula 60,8%; Caiado 2,9%; Renan Santos 2,8%; Augusto Cury 1,9%; Outros 1,3%.

USP — São Paulo (Centro/Sé) — 4.454 votantes: Flávio Bolsonaro 27,2%; Lula 65,1%; Caiado 1,8%; Renan Santos 2,6%; Augusto Cury 2,2%; Outros 1,1%.

O que os dados permitem — e não permitem — observar

O levantamento revela diferenças expressivas entre os locais analisados. No recorte de dez instituições, há desde um local em que Flávio Bolsonaro recebeu mais da metade dos votos até outro em que Lula concentrou quase dois terços.

Também chama atenção que a distinção não pode ser resumida a universidade pública versus instituição privada. Entre as públicas, a UFABC aparece no grupo liderado por Flávio, enquanto USP, Unicamp e UFSCar registraram vantagem de Lula. Entre as privadas, Insper e FAAP favoreceram Flávio, enquanto PUC-SP, ESPM, FECAP e Mackenzie tiveram Lula à frente.

O mesmo cuidado vale para qualquer tentativa de atribuir os resultados às características acadêmicas das instituições. Os dados mostram como votaram eleitores inscritos em seções instaladas nesses locais, não a preferência eleitoral de seus alunos, professores ou funcionários.

Ainda assim, a comparação com os resultados municipais acrescenta uma dimensão relevante. Em determinados casos, as urnas instaladas nas universidades reproduziram aproximadamente a direção da cidade; em outros, mostraram diferenças de dezenas de pontos percentuais — e chegaram até a inverter qual candidato estava à frente.

O recorte, portanto, funciona principalmente como um retrato geográfico das seções eleitorais instaladas nesses espaços e de seus entornos. Ele permite comparar ambientes distintos, mas não estabelecer que as próprias universidades ou suas comunidades acadêmicas expliquem as diferenças encontradas.

Metodologia

O levantamento foi realizado pelo The College a partir dos votos para presidente registrados no primeiro turno das eleições de 2026, realizado em 4 de outubro de 2026, nas seções eleitorais instaladas em dez instituições de ensino superior do estado de São Paulo.

Os dados de votação foram extraídos dos Boletins de Urna divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A identificação dos locais de votação foi feita a partir do cadastro do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP).

Entraram na análise Insper, UFABC, FAAP, PUC-SP, ESPM, UFSCar, FECAP, Unicamp, Mackenzie e USP. Nem toda instituição de ensino superior funciona como local de votação; por isso, foram consideradas apenas instituições que receberam seções eleitorais e para as quais havia dados disponíveis no recorte adotado. Quando uma universidade possuía mais de um local de votação incluído no levantamento, seus resultados foram somados.

Os votos registrados nesses locais não correspondem exclusivamente a alunos, professores, funcionários ou integrantes da comunidade acadêmica. Qualquer eleitor cadastrado em uma dessas seções pode votar no local, mesmo sem vínculo com a instituição.

A legislação eleitoral permite que o domicílio eleitoral seja demonstrado por vínculos residenciais e também por outros vínculos com a localidade, como profissionais, familiares, econômicos, sociais ou afetivos. Além disso, grandes instituições podem integrar áreas com circulação e moradia de estudantes e outros integrantes de suas comunidades.

Esses fatores ajudam a contextualizar o recorte, mas não permitem afirmar que os resultados representam “como votam os alunos” de cada faculdade. A análise mostra exclusivamente o comportamento eleitoral agregado das seções instaladas nas instituições selecionadas.