O Dia do Professor, comemorado em 15 de outubro, lembra uma lei de 1827. Naquela data, D. Pedro I assinou a norma que mandou criar escolas de primeiras letras em todas as cidades e vilas do Império.
A homenagem demorou mais de um século para chegar ao calendário. Em 1948, a professora e deputada Antonieta de Barros transformou o dia em data oficial em Santa Catarina. Em 1963, um decreto federal fez de 15 de outubro o feriado escolar do Dia do Professor em todo o país.
Para marcar a data, o The College reuniu dez educadores que ajudaram a construir a educação brasileira, apresentados em ordem de nascimento: Nísia Floresta, Helena Antipoff, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho, Anísio Teixeira, Antonieta de Barros, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Magda Soares.
A lista não é um ranking nem pretende ser definitiva. É uma seleção editorial, e muitos nomes fundamentais ficaram de fora. Lida em sequência, porém, ela mostra como algumas bandeiras atravessaram gerações: a instrução das mulheres, a escola pública, a alfabetização e a formação de quem ensina.
A primeira bandeira foi o direito das meninas à escola
A personagem mais antiga da seleção é Nísia Floresta, nascida em 1810 no Rio Grande do Norte. Em 1832, ela defendeu em livro o direito das mulheres à instrução, numa época em que a educação feminina era exceção.
Seis anos depois, em 1838, Nísia fundou no Rio de Janeiro o Colégio Augusto, voltado só para meninas. É o ponto de partida da linha do tempo: antes do debate sobre escola para todos, havia a disputa sobre quem podia estudar.
Quatro dos dez nomes da lista são mulheres. Além de Nísia, aparecem Helena Antipoff, Antonieta de Barros e Magda Soares, cada uma ligada a uma frente diferente: educação especial, política e alfabetização.
Entre 1932 e 1938, a educação ganhou instituições
O trecho mais concentrado da seleção está nos anos 1930. Em 1932, Fernando de Azevedo foi o redator e o primeiro signatário do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, documento que defendia uma escola pública, laica e gratuita. Dois anos depois, ele ajudou a organizar a USP, criada em 1934.
No mesmo ano do manifesto, a psicóloga Helena Antipoff criou em Minas Gerais a Sociedade Pestalozzi, um marco da educação especial no Brasil. Nascida em 1892 no Império Russo, ela havia chegado ao estado em 1929 para formar professores.
Lourenço Filho, um dos líderes do movimento da Escola Nova, criou em 1933 os Testes ABC, que mediam se a criança estava pronta para aprender a ler. Em 1938, tornou-se o primeiro diretor do Inep, cargo que ocupou até 1946.
O Inep aparece de novo na trajetória de Anísio Teixeira, que também dirigiu o instituto, além da Capes e da UnB. Anísio estudou com John Dewey na Universidade Columbia, defendeu a escola pública, laica e integral e criou a Escola Parque, em Salvador, em 1950.
A escola pública é o fio que liga metade da lista
A defesa do ensino público aparece em gerações diferentes. Fernando de Azevedo a registrou no manifesto de 1932. Anísio Teixeira acrescentou a ideia de escola integral. Florestan Fernandes levou o tema para a mobilização social.
Florestan começou a trabalhar aos 6 anos e se tornou um dos maiores sociólogos do país. A partir de 1959, liderou a Campanha em Defesa da Escola Pública.
Darcy Ribeiro fecha esse arco no campo institucional. Antropólogo, ele criou e foi o primeiro reitor da Universidade de Brasília, em 1962. Mais tarde, como senador, foi o relator da Lei de Diretrizes e Bases de 1996, que ficou conhecida como Lei Darcy Ribeiro. A UnB, assim, aparece duas vezes na seleção: com Darcy na fundação e com Anísio Teixeira na direção.
Da sala de aula para a lei
Dois nomes da lista transformaram a educação também pela via legislativa. Darcy Ribeiro, com a LDB. E Antonieta de Barros, que é a razão de o Dia do Professor existir como data oficial.
Filha de uma lavadeira, Antonieta foi a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira de deputada no Brasil. Em 1948, criou por lei o Dia do Professor em Santa Catarina, o embrião da data nacional estabelecida em 1963.
A alfabetização atravessa quase um século da seleção
Se a escola pública é um fio da lista, a alfabetização é outro. Ele começa com os Testes ABC de Lourenço Filho, em 1933, e passa por Paulo Freire.
Em 1963, em Angicos, no Rio Grande do Norte, Freire alfabetizou cerca de 300 adultos em 40 horas. Patrono da Educação Brasileira, ele é autor da Pedagogia do Oprimido, obra citada no mundo todo.
O fio chega a Magda Soares, a personagem mais recente da seleção, morta em 2023. Professora da UFMG, ela levou o conceito de letramento para o centro do debate sobre alfabetização no Brasil. Fundou o Ceale em 1990 e ganhou o Prêmio Jabuti em 2017.
Os 10 professores, em ordem de nascimento
Nísia Floresta (1810-1885): pioneira da educação feminina
Helena Antipoff (1892-1974): Sociedade Pestalozzi e educação especial
Fernando de Azevedo (1894-1974): redigiu o Manifesto dos Pioneiros (1932)
Lourenço Filho (1897-1970): Testes ABC e 1º diretor do Inep
Anísio Teixeira (1900-1971): escola pública e educação integral
Antonieta de Barros (1901-1952): criou o Dia do Professor em SC (1948)
Florestan Fernandes (1920-1995): Campanha em Defesa da Escola Pública
Paulo Freire (1921-1997): Patrono da Educação Brasileira
Darcy Ribeiro (1922-1997): fundou a UnB e relatou a LDB de 1996
Magda Soares (1932-2023): alfabetização e letramento
Somadas, as trajetórias vão de 1810 a 2023. No período, a discussão mudou de foco: de quem tinha direito à escola para como garantir que todos aprendam a ler. As duas questões continuam presentes no debate educacional brasileiro.
Metodologia
A seleção é editorial e foi feita pelo The College para o Dia do Professor de 2026. Não se trata de um ranking: os dez nomes aparecem em ordem de nascimento, e muitos educadores fundamentais ficaram de fora.
As informações foram checadas em duas fontes por fato, entre elas a Coleção Educadores do MEC, o Inep, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, a Academia Brasileira de Letras, a Agência Senado e universidades como USP, UFMG e UnB.
Os retratos usados no post original são fotografias e gravuras históricas, apresentadas em preto e branco.
Fonte: MEC, Inep, Alesc, ABL, Agência Senado e universidades. Elaboração: The College.
